Lua Nova - Parte II

Feriado. Dia das Crianças e da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O saudoso Padre Donizetti era muito devoto da santa, consequentemente, Tambaú também. Eu sou devoto, desde criança. No dia de Nossa Senhora Aparecida, acordei com som dos fogos de artifício dentro do meu quarto. Carreata na porta de casa às 9 da manhã!
Tinha combinado de ir na casa do Che a tarde para gravar uns cd's. Eu liguei pra ele e fui. Fiquei pouco tempo. Acabou que nem gravamos cd nenhum. O dia estava esquisito e meu humor também. Fomos para a praça umas 4 e meia da tarde. Liguei para Lis e ela apareceu. No Bar do Geraldo, tomávamos uma cerveja, onde mais umas 10 pessoas faziam o mesmo. De repente, duas cenas se instalaram. De um lado, na frente da igreja, fiéis se juntavam para a procissão. No auto-falante da igreja, o padre chamava a população e rezava a Ave-Maria. Do outro lado, no Bar do Geraldo, aqueles 10, vestidos basicamente de preto, com all stars sujos e rasgados nos pés, conversando e rindo. No auto-falante do aparelho de som, tocava um rock pesado, que nem dava pra identificar qual banda era. O padre passou duas vezes, de batina e tudo, e nos cumprimentou. Nós, Lis, Che e eu, estávamos no meio dos dois cenários. E começamos a conversar sobre religião, Deus, felicidade. A cerveja bateu e tudo ficou mais caótico. Na minha cabeça, as duas peças encenadas ali na praça, em volta de nós, estavam em slow motion. Na nossa turma, o clima esquentou, e antes que fervesse, cortamos o assunto e fomos embora. Fecham-se as cortinas.
A noite teve ensaio, do "Sexo dos Anjos", anjos que aparentemente estavam em mais uma de suas crises, mas era só impressão. Lislaine nem apareceu. Ficamos Che e eu no posto depois, conversando. Tudo ficou no lugar.
Fui pego de surpresa na quarta-feira. Paulo marcou ensaio da peça "Somos todos do jardim da infância". Estou sem computador em casa e fica complicadíssimo montar as coreografias. Saí da biblioteca mais cedo, decidido de que ia fazer o ensaio ser produtivo. Cheguei em casa, me sentei no sofá com o texto no colo. Na cabeça, a ideia de que "sou capaz e vou conseguir criar". Fiz umas anotações em 4 cenas. Saí animado de casa e mal podia esperar chegar a hora de ver as cenas acontecendo. Na quinta-feira, o ritual foi o mesmo. Cheguei da biblioteca e fui estudar o texto. Foram dois dias de ensaios produtivos. 5 cenas novas montadas, agora faltam 23. Teremos 2 dias de ensaio por semana, e depois de montadas as cenas, virão as coreografias. Os deuses do teatro vão nos ajudar e tudo ficará pronto para a estreia no mês que vem.
Comecei a tomar um remédio essa semana, para controlar a ansiedade e fazer com que eu pare de fumar. Reduzi mais da metade do número de cigarros que estava acostumado a fumar, mas ainda não parei. Estou uma seda desde então, calmíssimo. Isso não impediu que Che e eu tivéssemos outro stress na sexta-feira. Coisa boba, pequena, mas nos irritamos muito. Odeio ser mal interpretado e pagar o preço por isso, sem merecer. Che odeia ser acusado daquilo que não fez e ser comparado a outras pessoas. Antes, de manhã, a biblioteca realizou mais um projeto. Recebeu as crianças de uma creche da cidade, a "Casa da Criança", para apresentar vídeos e livros sobre o meio ambiente, mais especificamente, sobre a biodiversidade. Depois, Fatinha e eu começamos a trabalhar em cima do teatro de fantoches que os alunos da Quintal das Artes apresentarão na Semana do Livro, na biblioteca.
A noite de sexta-feira não prometia nada demais. O remédio me deixou extremamente lento, devagar, e eu cheguei até a sentir a perda de alguns reflexos. Peguei um suco no posto e na hora de entregar o dinheiro. entreguei o suco para o rapaz. Depois, ele perguntou se eu queria que ele abrisse. Eu disse que sim e não entreguei a garrafa pra ele. #tenso. Che estava de John Móvel. Lis apareceu também. Fomos dar uma volta e paramos no Deoclides. O bar estava lotado e não tinha mesa vaga. Lembrei o Che do que ele tinha dito sobre ir para Santa Rosa, uma cidade vizinha, no sábado. Ele disse que topava ir naquela hora. Topamos e lá fomos nós. Ajudei no combustível e pegamos a estrada no John Móvel. Lis ficou, porque precisava resolver uns problemas. Sabíamos que era um pouco arriscado. Fazia tempo que o John Móvel não era testado neste tipo de situação. Na estrada escura, poucos carros cruzavam conosco. Ouvíamos música no meu celular, já que o John Móvel ainda não tem som. Teve Van Halen, Cranberries e Culture Club, a banda do Boy George. Chegamos. Nossa, não ia a Santa Rosa há mais de 10 anos. Assim como o Che, tenho familiares que moram lá, mas já tinha avisado pra ele: nada de contatos familiares naquela noite! Mesmo assim, ele quis passar na frente da casa do seu avô, para mostrar para mim o bosque onde brincava quando era criança, o seu quintal. O avô dele estava na calçada e aí não teve jeito. Conheci o avô, uma tia e uma prima do Che. Estava muito sem graça, mas todos foram muito simpáticos.
Encerrada a visita familiar, continuamos o tour pela cidade a bordo do John Móvel. Chegamos no centro da cidade, na praça da igreja Matriz, onde os pais do Che se casaram. Lá existem muitos bares e lanchonetes em volta. Tinha muita gente, bonita e bem vestida. Descemos do carro e fomos dar uma volta. Rolava um som numa choperia. Andamos um pouco e, quando paramos, avistei alguém num banco da praça, perto de nós, que me chamou a atenção. Era muito interessante e olhei até ser correspondido. E fui. A troca de olhares rolou durante uns 10 minutos, enquanto conversava com Che. O outro lado também era uma dupla. Você fica nessa de olhar até ter certeza do que é que está acontecendo, e quando saca o que é, alguém tem que se mexer. Levantou e saiu. Saí atrás, descemos a rua. Nessa hora, já estávamos sozinhos. Primeiro, rola uma conversa.
Oi! Oi, tudo bem? Tudo bem e você? Tudo bem! Que bom! E aí? E aí, tudo bem?... ah eu já perguntei se estava tudo bem... Quantos anos você tem? 22! E você? 25! Você mora aqui? Não! Eu também não! Sério? Sim.
Éramos duas pessoas de fora, tentando passar um final de semana diferente.
Você namora? Não! E você? Ah, mais ou menos estou enrolado com uma pessoa que também é de fora, mas não está dando certo. Namoro a distância é complicado.
E fala, fala, até que: e agora? Não tem mais nada pra falar. Os olhares se cruzam, dessa vez mais apertados e mais assustados. Há um silêncio, mas rola uma música nos ouvidos uma música particular. Os dois vão chegando perto e o beijo rola, lento, um tiro no escuro. Depois clareia tudo e fica mais quente, e mais seguro. Foram 20 minutos de carinho. O coração aguenta isso tudo? Não tô falando de paixão, mas sim de química, aquela que faz o coração bater mais rápido, o sangue passar apressado pelas veias. Tem aquela vermelhidão no rosto. Você pensa que o mundo é seu, e esquece de tudo. Trocamos telefones. No meio do caminho de volta a civilização, mais um beijo. E tudo ficou na promessa do que poderá ser da noite seguinte, se haverá outro encontro, antes do riacho seguir seu curso normal, e a lua mudar.
Encontrei o Che, que me esperou numa outra rua, abastecemos o John Móvel e pegamos a estrada de volta pra casa. Agora rolou AC/DC, Stones, Beatles e Janis Joplin. Che me deixou em casa. Ele não topou comer lanche. Era 1 e meia da manhã. Entrei em casa, comi uns salgadinhos. 2 e 20 da manhã, antes de desligar a TV, recebi uma mensagem no celular: "Adorei ter conhecido você. Quero muito te ver amanhã. Bjos".

Estúpidos

Sexta-feira tem se tornado o melhor dia da semana. Está no meio de tudo. Está antes do possível fracasso da noite de sábado e depois da semana que é sempre cansativa. É o dia em que estou mais disposto pra sair, conversar, sem muita expectativa de que nada extraordinário aconteça, mas com muita vontade de que dê tudo certo. É tipicamente uma noite de muitos carros na rua e muitos copos de cerveja na mesa. Tem dia em que a tranquilidade da cidadezinha do interior é até agradável. Na quermesse que está chegando ao fim, o grupo Los Borracheros se apresentaram. Pra mim, é um grande dejavù. Assisti muitos shows deles, que fazem um som latino, na época em que candidatos a prefeito faziam comício com muita bexiga e papel voando. Era criança e acompanhava meus pais. Nossa turma tinha pensado em ir até lá ontem, mas os planos mudaram. Lis estava requisitada nessa noite. Perguntaram por ela assim que cheguei no posto. Então, tínhamos que ficar num local visível e propício para o possível encontro. E deu certo. Enquanto ela via a lua do outro lado, Che e eu comíamos salgadinhos. Cerveja não estava descendo ontem. Acho que era o frio. Tomamos uma só e, quando a cidade esvaziou, fomos embora também.
Em casa, tenho feito muita coisa que há tempos planejava. Estou revendo uns dvd's, ouvindo músicas esquecidas, lendo. Estou sem internet temporariamente. Meu notebook teve problemas com a tela e está no conserto. E ele resolveu quebrar na quarta-feira, justamente no dia em que meu pai acordou com o típico mal humor ariano, aquele sem motivo e sem direção. Meu pai consegue ser pior que eu quando acordo nesses dias. Ele foi buscar meu note na biblioteca com a cara de quem tinha acabado de chupar um limão. E falou: "por que você não levou para arrumar antes de quebrar de vez e bla bla bla..." Sim, meu note vinha apresentando problemas há mais de uma semana, mas como ainda dava pra usar, deixei pra lá. Agora vou pagar caro por isso. Nessa de ficar sem internet, tenho aproveitado para colocar meu sono em dia. Fico anestesiado, como se tivesse tomado o mais potente dos calmantes. Tenho medo de abrir a boca de sono e engolir algum objeto.
Minha semana no teatro foi produtiva, não como deveria, mas foi. As coreografias da "Casa de Brinquedos" estão quase todas montadas. A produção da peça é difícil e leva tempo, por isso, Paulo optou por estrear "Somos todos do jardim da infância" antes. Isso me pegou totalmente de surpresa. Temos em mente a data de 23 de novembro. Nessa semana, o número musical com "Banho de lua" ficou pronto. Um pequeno insight com "Help" dos Beatles, resultou numa calça minha rasgada. Quem mandou me abaixar demais? Ainda bem que ninguém percebeu. Ô urucubaca! O fato é que meu bloqueio criativo pra essa peça vai acabar nesse feriado quase prolongado, nem se for na marra.
Começamos também os ensaios para a apresentação de "Sexo dos Anjos" no festival de Varginha, que acontece no fim do mês. É, não tenho muitos motivos para conseguir dormir bem, sem ataques de sonambulismo. Numa manhã aí dessa semana, minha mãe entrou no quarto e me acordou. Eu me virei pra ela e disse "você é um garoto infantil". Ela: "o quê?". E eu: "é, está escrito aqui no teatro, 'garoto infantil'". Numa outra, no meio de algum sonho bizarro com os meus amigos, Che foi até a mim e disse "meu amor, está na hora de acordar!". Acordei assustado e vi que era minha mãe na porta do quarto. Ah, fora os pesadelos que tenho nos cochilos depois do trabalho. Depois de um deles na quarta-feira, acordei dando a volta no mundo. Não sabia que em eu era e demorei muito pra reconhecer minha casa. Mas tudo isso já foi muito pior na minha adolescência. Já tentei subir no guarda-roupa. Uma vez, meu pai foi me buscar na esquina de casa. Foi quando ele e minha mãe passaram a esconder as chaves de casa toda noite. Ah, e teve também a vez em que saí correndo, gritando, derrubando as cadeiras da copa e dando socos no suposto monstro que corria atrás de mim. #tenso.
Quinta-feira foi um dia difícil também. Sabe quando você perde oportunidades de ficar calado? Você caça problema, sarna pra se coçar. Pois é. Falei demais, fiz pergunta que já sabia a resposta, reclamei demais da vida e ouvi o que não queria. E o pior de tudo é que depois, ainda achei que estava em condição de cobrar alguma coisa. Ô urucubaca! Isso rendeu uma conversa difícil, dessas de novela, intermináveis e reveladoras, no final da noite. Sinto muita falta de alguém pra conversar. O único que me ouve é o Che. As outras pessoas que me cercam não saberiam me entender, não dariam nenhum conselho proveitoso, ou não estariam preparadas pra uma barra tão pesada. Já teve gente que até se aproveitou (nesses momentos aí de fraqueza em que preciso esvaziar o copo que está cheio) pra tirar um sarro da minha cara, ou então pra aliviar os próprios problemas. O Che é o único que ainda me suporta. Eu faço a minha parte também. Estou com ele para o que der e vier, pra quebrar qualquer galho. Mas mesmo assim, acho que às vezes fica tudo muito pesado pra nós.
Ainda na quinta, antes disso, Éder apareceu. Entrou mudo e saiu calado. Cumprimentou nós todos estranhamente. Sentou conosco no posto com a cara fechada e logo foi embora. Eu não tinha o que dizer. A questão não era não querer falar, mas sim não ter o que falar. Nenhuma demonstração de que a situação iria se resolver, então, ficou tudo como está.
Depois, alguém que andava meio sumido apareceu, alguém que apareceu na minha vida no começo do ano numa das vezes em que estive solteiro, e que quase ganhou meu coração. Tivemos um lance rápido e bom, mas que acabou por uma certa instabilidade sentimental que ainda ronda, pelo que percebi. Quis falar comigo. Entrei no carro e fiquei um tempão lá, ouvindo lamúrias amorosas e dando conselhos. Se fosse bom, a gente vendia né, mas já é um consolo conversar. Sei bem como é. Ainda mexe comigo, muito.
Sobre a noite de hoje, ainda não decidi nada. Muita coisa conversada nessa quinta-feira foi determinante para o que vai rolar hoje. Acho que preciso dar um tempo, aliviar a minha barra e dos outros, que me carregam nas costas. Estou sobrecarregando meus amigos. Não quero bloquear, podar ninguém. Todo mundo tem direito de correr atrás dos seus lances, suas vontades, de fazer sua própria história. Me incomoda demais o fato de que viro preocupação das pessoas toda noite, de que gostem de mim e tentem me proteger de mim mesmo. Podem deixar, eu me aguento. Será a noite da liberdade.

Visões do futuro

A cidade amanheceu coberta de papel. Quase não se via sarjeta. Do caminho de casa até o meu local de votação, não havia uma rua que não estava assim. Dia de eleição é sempre um dia agitado. As pessoas ficam alvoroçadas. As ruas ficam lotadas de pessoas que você nunca viu, que moram na mesma cidade que você, mas que você nunca viu. Existe algo diferente no ar. Pra mim, sempre foi assim. Talvez seja um sentimento de que é o dia em que você pode dar um grande passo, que pode modificar a sua vida e de todo mundo que conhece. É uma decisão que não permite erros, equívocos, indecisões. Você faz a sua parte achando que tem razão, e torce pra que ela prevaleça perante os milhões que, assim como você, esperam o mesmo. Esse foi meu voto mais consciente. Fiz um esforço pra me inteirar das propostas, dos acontecimentos, do histórico dos candidatos, pra fazer o melhor possível na hora da eleição. Os resultados me surpreenderam bastante. Eu amo meu país, sinto orgulho do Brasil, adoro o povo brasileiro, e não trocaria minha nação por nenhuma outra, mas, dessa vez, não foi possível não me decepcionar. Parte dessa mesma nação que tanto adoro, elegeu um palhaço analfabeto (que durante sua campanha, só fez zombar da cara do eleitor) como deputado federal, mesmo sabendo que ele traria de volta várias laranjas podres que já pintaram e bordaram com o dinheiro público e saíram ilesos da situação. Outra parte da nação colocou no poder uma dessas laranjas podres, sem quem ela precisasse da esmagadora soma de votos do palhaço companheiro de partido. Longe daqui, no Distrito Federal, outra parte da nação mandou para o segundo turno uma candidata a governadora completamente despreparada, inclusive psicologicamente, que entrou de gaiato no navio, assumindo o lugar do esposo que se retirou por ter a ficha mais suja que pau de galinheiro. E não parou por aí! Teve jogador de futebol endividado, cantor de pagode que bate em mulher, cara metido a operário e sindicalista que participou de esquema de desvio de dinheiro, político com a ficha mais suja do país que só está esperando um sinal verde pra comemorar a vitória, uma infinidade de personagens que, se não entraram, se deram muito bem nas urnas. O voto obrigatório perdeu o sentido por aqui. Pouca gente sabe a importância que o direito de decidirmos os governantes do nosso país, tem na nossa vida. É uma individualidade sem tamanho, não há mais pensamento no coletivo. Não acredito em voto de protesto, não dessa forma. Protestar é mudar os hábitos, é ler jornal, acessar sites na internet atrás de notícias, de informação, assistir o horário eleitoral com visão crítica, é não permitir ser feito de palhaço, é não dar atestado de burrice, é escolher certo e votar certo, fazer bom uso do direito que temos, direito que muitos lutaram pra conseguir, pra que hoje tivéssemos voz. Houve uma época em que não se podia falar de política, não se podia ter opinião, exigir nada, cobrar nada. Muitos deram o sangue pra que isso mudasse. Muitos morreram por esse ideal. Muitos que, amavam nossa pátria mais que nós todos hoje em dia, tiveram que deixá-la, porque não cabiam no sistema. Hoje, somos livres, temos voz, podemos exercer nosso direito de cidadão, e o que temos feito com isso tudo?
A votação foi tranquila. Encontrei Lis e Che na saída, duas pessoas com quem conversei muito sobre política nos últimos dias. Fomos dar uma volta, até pararmos no posto. Lis não ficou muito tempo, logo saiu, por um motivo muito nobre, um motivo que apareceu no sábado a noite, assim do nada, e está movimentando a vida dela nos últimos dias. Che e eu continuamos no posto, na companhia de algumas cervejas. Já tinha desistido de que alguma coisa proveitosa acontecesse nesse final de semana. Sexta-feira teve uma noite complicada. Recuperados, sãos e salvos do temporal que nos pegou de surpresa durante a tarde, nos encontramos no posto. A chuva ainda ameaçava cair. Demos umas voltas e paramos no Geraldo. Já falei desse bar por aqui. Gosto de ficar por lá. Tá sempre tocando rock e podemos ficar ao ar livre, na praça, tomando cerveja. E o pessoal que frequenta lá é muito sossegado, todo mundo fica na paz, numa boa. Éder apareceu e se juntou aos três mosqueteiros. Papo vai, bebida vem, e alguns comentários desnecessários e visivelmente mentirosos começaram a tornar a noite um pouco desagradável. Che, Lis e eu somos da paz. Nós temos nossos rolos, nossas discussões e quebra-paus, mas somos muito sinceros. O que temos que dizer, dizemos e pronto! Não ficamos com leva-e-traz, e não deixamos nenhum assunto mal resolvido entre nós, e confiamos uns nos outros. Mas nem todo mundo é assim. Algumas atitudes vão se somando e moldando o caráter das pessoas, aos nossos olhos. Não engulo essas tais atitudes há muito tempo. Já fui vítima delas algumas vezes, e só não abri mão dessa amizade por causa dos meus outros amigos, que não tinham nada a ver com a história, e que ficariam divididos. Há tempos venho percebendo essas más intenções, e agora o copo está enchendo. O fato é que minha amizade com Éder anda complicada. Não aceito seu comportamento infantil, sua íncrivel capacidade de criar mal -estar, e sua leve intenção de sempre jogar uns contra os outros. Nessa noite, ele mesmo trouxe a tona de novo uma história que acabou de ser abafada, um atrito que ele teve com Leandro, e trouxe de uma forma que, pra mim, não foi nada convincente, e pior, envolvendo meu nome, eu que não tinha nada a ver com a história. Anteriormente, ele teve a oportunidade de se explicar, e não fez. E isso pra mim foi como assinar atestado de culpa. O fato é que ele e eu nos estranhamos, como dois cavalheiros, só na base da palavra. Nessas horas, não tenho papas na língua. Se não deixar claro o que penso, não sou eu. Enfim, Leandro apareceu depois e contou uma outra parte da história. Bom, o clima estranho da noite já estava estabelecido, apesar de todos estarmos nos tratando super bem. A essa altura do campeonato, tínhamos consumido 4 litros de cerveja. Todos passaram ilesos por isso, eu não! Não sei o que houve, mas passei mal. Lislaine já tinha ido embora, e os meninos foram me acompanhar até em casa. A cerveja não caiu nada bem. Estava com sono, muito cansado, indisposto, bebi e aí, sei lá. Ou era então o fato de ter de me segurado tanto pra não dizer algumas verdades cruéis pra quem merecia.
Novinho em folha de novo, a noite de sábado chegou, depois de uma tarde imprestável que se resumiu em cama-sofá-cama-cozinha-sofá-cama. O destino foi o Mancha. Rock n' roll de sempre, vinho básico, papo descontraído com Maikinho e Joãozinho, que estavam conosco! Passou pela nossa cabeça uma ida até Palmeiras. A Lis estava animadíssima, mas Che e eu nos recusamos, talvez por comodismo, pela cidade também ser pequena e ter tantos atrativos quanto aqui. Bom, mas Deus escreve certo por linhas tortas. O lugar da Lis no sábado a noite era pra ser Tambaú mesmo. Éder apareceu e o clima para o lado dele não estava bom. Eu posso falar só de mim mesmo, mas as atitudes dele não vem incomodando só a mim na nossa turma. Logo ele foi embora, de novo, mais uma vez sem tentar se explicar, sem esclarecer as coisas e sem deixar tudo bem.
Diante desse final de semana sem muita imaginação, a conversa entre Che e eu na praça, no domingo a tarde, depois das cervejas no posto, só podia ser uma versão bem humorada de como mudarmos nossa rotina no final de semana. Sempre disse pro Che que ele é um grande acomodado, que ele prefere o fácil, o terreno conhecido, que não se arrisca. Lislaine e eu estamos sempre atrás, e os três se condenam ao ostracismo. Che está consertando seu carro, eu penso em tirar carta no final do ano e arranjar um carro também. Nos apoiamos na ideia de que, quando não tivermos mais que andar a pé, não haverá essa rotina, que nossa vida se abrirá para novas possibilidades, de baladas, de pessoas, de oportunidades. Vamos aguardar. Espero ainda ter muita história pra contar.
Enquanto bebíamos mais uma ou duas cervejas e elas iam subindo, o papo começou a ganhar outros tons. Por causa das últimas discussões que tivemos, ficar sozinho com o Che não tem sido tão fácil. Nada demais, simplesmente porque me sinto às vezes a pessoa mais entediante do mundo, a que sempre está falando de coisas chatas, monótonas, desnecessárias e inconvenientes. Sei lá, sinto uma certa obrigação de ser legal, depois de ter me comportado de maneira grosseira há alguns dias. Nós conversamos assuntos que só nós suportamos, assuntos que só converso com ele. São viagens, pensamentos que a pequena embriaguez proporciona, e a gente embarca, um na viagem do outro. Essa tarde foi legal. Não sei porque, mas o assunto principal foi o futuro, talvez por causa das eleições. A essa hora, já aguardávamos ansiosos algum resultado. Que surpresas o futuro reservava para o nosso país? E pra nós, dois amigos beberrões em um domingo a tarde? Ah, o Che vai se casar, ter filhos, netos. Vai ser dedicado com a sua esposa, que mesmo que não seja a mulher dos seus sonhos, ele vai amar muito. Vai ter um emprego que vai suprir as necessidades da sua família, até se aposentar e virar um velho insuportável. Vejo Che morando aqui em Tambaú pra sempre, não sei se ele teria coragem de um dia ir embora. Não sei porque, mas eu tenho a impressão de que ele um dia vai esquecer de tudo que vivemos. A Lis não fica aqui, vai fazer faculdade e, quando se formar, não bota mais os pés na cidade nunca mais. Vai virar professora de dança e essa será sua profissão. Vai me mandar cartões de Natal e me chamar pra batizar seu primeiro filho, com seu marido malucão. Ela não esquecerá nossa história. O meu futuro é o único que não consigo imaginar, desenvolver uma tese. Olhar de fora é muito mais fácil. Che diz que não vou morrer aqui, que vou embora, trabalhar em outro lugar, que não vou acabar sozinho, que terei uma companhia, e que o Teatro será sempre a minha profissão, de um jeito ou de outro. Eu só tenho certeza que nunca esquecerei tudo que vivemos, mesmo quando tudo mudar, e cada gota d'água tiver que seguir seu caminho nesse riacho. Enquanto isso não acontece, temos que fazer a diferença, positivamente se possível, um na vida do outro. Não estamos aqui juntos vivendo tudo isso por acaso.
No domingo, depois de mais uma dessas noites em que não fazemos nada juntos, desci sozinho por outro caminho. Quis pegar algo pra comer na lanchonete perto do Santuário, e como ninguém estava afim, fui lá, tendo como companhia somente meu mp3. A solidão me caiu bem nessa hora, como uma luva. Nós vamos vivendo, os dias vão passando, e às vezes eu me esqueço, deixo de lado, substituo. Foi bom lembrar de tudo, de quem sou, do que gosto, dos meus sonhos, das minhas frustrações, paixões, do que me deixa imensamente feliz, dos lugares que gosto de frequentar, das baladas que gosto de ir, das pessoas que quero perto de mim, da comida preferida, do beijo mais incrível, isso tudo sem questionamentos, sem explicações. Só minha vida e eu, meu passado e meu presente. Foi bom me encontrar.

O temporal

07:00 hs - Minha mãe entra no quarto e diz "está na hora"... Cinco segundos pra eu assimilar o que é que está na hora e pimba! Estou de pé. Na época do colegial, minha mãe era mais elétrica. Abria a janela, lançava o sol na minha cara e dizia animadíssima "vamos acordar... você está atrasado". Foi o que fez durante um bom tempo eu acordar com o rádio programado na fm. Um despertar sofrido que tenho lembrança é de uma vez, quando estava na 4ª ou 5ª série, e fui acordado, num dia de prova de Geografia, com o som do rádio na cozinha, que estava tocando uma música do Leonardo, algo mais ou menos assim: "horizonte azul, vermelho, luzes a brilhar..." #tenso. Hoje em dia, ela entra, diz que "está na hora" e sai. Depois de um tempo, volta na ponta do pé, em silêncio, pra ver se eu realmente levantei. Pensa que eu não vejo. Às vezes, eu já estou de pé. Outras vezes, eu saio da cama pra valer quando a vejo pela segunda vez.

07:05 hs - Corre pro banheiro, escova os dentes. O cabelo, deixa pra depois. Aí é a hora mais chata, escolher a roupa. Tem dia que não gosto de jeans, tem dia que não gosto de tactel, tem dia que não gosto de xadrez. A camiseta é a parte mais difícil. Nunca nenhuma me agrada. Essa já tá velha, essa me engorda, essa já não serve mais mesmo, essa não combina com a calça. Tem dia que o jeito é optar por uma sobreposição: camiseta e camisa. Me visto e corro pra pegar o All Star, que também tem que combinar, senão fica um desastre. Pronto! É hora de colocar as chatas lentes de contato. Ah, tem manhã que meus olhos parecem ter um caminhão de terra, e ardem. Fiz o antipático um dia desses e tomei café-da-manhã de óculos escuros. Ah e agora arruma o cabelo! Passa pomada e arrepia.

07:20 hs - O café-da-manhã é sempre o mesmo, pão com manteiga e leite. Não sinto fome logo que acordo. Só como mesmo pra larica não atacar feio depois. Chega a hora do primeiro cigarro. Toda noite antes de dormir penso em largar essa porcaria, aí digo pra mim mesmo que não vou fumar no dia seguinte. Mas depois do café-da-manhã, esqueço a promessa. Fumo pra me aguentar! Tem dia que é difícil mesmo, só na base da nicotina. Sou ansioso demais. È um cigarro pro café-da-manhã, outro pra quando chego na frente da biblioteca, outro pra quando entro, enfim, tudo é motivo pra acender um cigarro.

07:40 hs - Meu pai me dá carona todos os dias, até perto do trabalho. Aí tem mais uma caminhada de uns 5 minutos e chego na biblioteca. Nesse percurso, estou sempre com o mp3 do meu celular ligado. Tem dia que acordo mais mpb, outro dia mais rock, no outro rock nacional, e em outros, melancolicamente pop dos anos 90. Marcinha, que é funcionária, está sempre adiantada e chega primeiro que eu. Adoro encher o saco. Fico atrás dela quase o dia todo, imitando o papagaio do Chapolin Colorado e perguntando se ela quer casar comigo. Antes, eu a assustava, mas isso a deixava muito brava. Quando vou na cozinha, ela começa a conversar comigo e não pára mais. Fala, fala, pelos cotovelos. Quando eu volto para o trabalho, do meio da biblioteca, ainda ouço ela falando, sozinha.

07:50 hs - Josi chega.. É ela que abre a biblioteca todos os dias. Fatinha logo aparece. Ela é sempre a mais animada. Nunca vi a Fatinha de mal humor, pra baixo. Che chega depois. Tem dia que dá medo de olhar pra ele, chega com uma cara péssima, com olho inchado de sono. Passa uma meia hora e ele volta ao normal, aí ele fala, conversa, dá risada. Ah, essa semana a gente não está se estranhando. Só na segunda-feira que rolou um mal-estar por causa de uma ou outra atitude idiota de ambos, mas que resolvemos no mesmo dia. Sim, saímos só nós dois na segunda a noite, a pedido meu. Queria acertar as coisas, saber o que estava acontecendo. Nos últimos dias, qualquer palavra era interpretada como agressão, como ofensa, e acabávamos num climão danado. Mas tudo está certo agora. Lis trabalhou a semana toda de manhã. Normalmente, ela só aparece a tarde. Ela não teve aula, por causa dos Jogos da Primavera, então ficou com a gente. Nossas conversas pela manhã tem sido sobre política, influenciados logicamente pelas manchetes da Folha de São Paulo. Um ou outro lê algo relevante no jornal, e nós comentamos, discutimos. Ontem a noite, depois do teatro e de ter ido embora mais cedo por causa da maldita lente do olho esquerdo estar me incomodando demais, acompanhei os últimos 3 blocos do debate dos candidatos a presidência da república. A Dilma, como citei há algum tempo aqui mesmo no blog, é pra mim um boneco de ventríloquo, e com a fisionomia de uma máscara do carnaval de Veneza, como disse Aguinaldo SIlva no twitter essa semana. A candidata, além de demonstrar um despreparo visível e uma grande falta de jogo de cintura diante das alfinetadas do velho Plínio, não apresentou nenhuma proposta inovadora, mas sim, primou pelos elogios aos 8 anos de governo Lula e, afirmou e reafirmou que dará continuidade a todos os projetos do PT, mais bolsa-família, mais "minha casa, minha vida". Tudo mais do mesmo! O que me chamou a atenção foi ela ter dito que sua meta é transformar o Brasil num país desenvolvido. Como isso pode acontecer se o Brasil possui um grande caos na saúde (exatamente nas regiões onde ela tem mais eleitores, vai entender!), falhas na educação, a segurança nem se fala? A meta é pagar loucamente a dívida externa para se livrar desse calo e tornar o país mais independente, enquanto deixa em banho-maria as situações problemáticas com o assistencialismo maquiado de política social? Assistencialismo, que fique claro, que garante muito voto e a permanência do PT no poder por mais 4 anos. Se uma parede apresenta um buraco, uma rachadura, não adianta tapá-lo com uma massa fajuta, só pra visita não ver, porque, uma hora ou outra, o buraco vai se abrir de novo. Bom, de mensalão e escândalos, nem se tocou no assunto. O candidato Serra usou de um discurso parecido. 20 entre 10 respostas do candidato começavam com "quando eu fui governador...". Onde estão as novas propostas? E já que era pra se falar da época em que era governador, por que Serra não falou dos ataques da facção criminosa a São Paulo, do seu súbito desaparecimento enquanto o Estado inteiro esperava uma posição, e o que ele fez foi jogar a polícia militar contra a civil, piorando muito a situação? E dos problemas da educação, das greves dos professores e alunos nas faculdades, e de como era difícil e intempestivo entrar em um acordo? Serra também me decepcionou em sua campanha. Ver que as pesquisas o deixavam distante da primeira candidata, não era motivo pra desespero. Não havia necessidade do descontrole com a imprensa e nem das declarações de fracasso que deu nos jornais e na televisão. Há 3 semanas da eleição, o candidato dizer que sua campanha precisava de um RESTART (sem trocadilhos, ok?) é, no mínimo, uma grande demonstração de despreparo. Poxa, será que nem o seu marketeiro, ele soube escolher direito? De qualquer forma, o PSDB governou bem São Paulo nesses últimos anos. O Estado cresceu, se desenvolveu, e pode ser que dê certo no governo presidencial. Mas Serra é meu candidato se houver um segundo turno. No primeiro turno, meu voto é da candidata Marina Silva. Gosto de suas propostas, sua sensatez e seriedade, sua história, e acredito na competência dos candidatos do Partido Verde, um partido relativamente novo que vem construindo uma história e que poderá chegar longe, numa próxima vez. Marina tem experiência, garra, lutou muito pra chegar onde chegou. Admiro-a muito por ter saído fora do PT quando estourou a bomba do mensalão. Nesses casos, ou você se junta com a turma de ladrões, ou cai fora, não há espectadores. E Marina saiu, foi para um partido que defende os mesmos interesses que ela, e fez uma campanha honesta e digna. O Plínio é um fanfarrão, uma figura, muito inteligente, idealista. Mas esse idealismo pode ser bom até certo ponto. Mudar o Brasil para o que ele pretende não se faz em 4 anos, nem em 8 anos. Muitos interesses estariam em jogo, são cartas que estão na mesa do mesmo jeito há muitos anos, e o Piiisol encontraria muitas dificuldades para promover essas mudanças sociais. Queria muito ver como um partido pobre de esquerda se sairia no governo do Brasil, mas essa não é uma época para se apostar em incertezas desse porte.

09:30 hs - As manhãs na biblioteca costumam ser agradáveis. Logo que chego, fecho os livros, de empréstimo e de frequência. Temos que ter o controle diário disso: quantos livros saíram para empréstimo, quantas pesquisas foram realizadas e a frequência de sócios. Marcinha faz sempre chá e café com bolachas e sempre dou um escapadinha até a cozinha. Sempre atualizo o blog da biblioteca nesse horário. Gosto muito de fazer isso. Acho ótima essa interação que podemos fazer com os sócios através da internet, dando dicas de livros, de autores, relembrando grandes obras e postando notícias sobre o mundo literário. Aliás, quem quiser acessar e nos seguir, o endereço é http://bibliotambau.blogspot.com . O movimento na biblioteca de manhã varia bastante. Tem dia que a gente mal chegou e já tem gente na porta querendo entrar. Tem dia que não aparece quase ninguém, quando chove por exemplo.A hora passa rápida de qualquer forma.

11:15 hs - Almoço na biblioteca todos os dias, no mesmo horário da Marcinha e da Josi. Era cansativo demais ir a pé pra casa todo dia e voltar no período de uma hora. É divertido! Minha mãe sempre manda suco. Refrigerante durante a semana, nem pensar. Josi, Marcinha e eu batemos altos papos, rimos muito. Depois, cada um lava a sua louça e eu fico na internet até dar meu horário. Passo praticamente o dia todo na internet. Fico no twitter, no e-mail e no blog da biblioteca. Gosto de saber o que está acontecendo, ver os trending topics, as mensagens, afinal, trabalhamos com cultura e informação. Adoro trabalhar na biblioteca. Gosto de ficar no atendimento, de indicar livros, de procurá-los para as pessoas. Só não gosto muito de pesquisa. Me embanano todo e quase sempre acabo pedindo uma ajuda pro Che, que é fera nisso. Gosto também de fazer carteirinhas dos novos sócios. O que mata é a arcaica máquina de escrever, enquanto o arquivo e as fichas não são informatizadas. Na verdade, nunca imaginei uma biblioteca sem o som de máquina de escrever. A biblioteca vem ganhando cada vez mais sócios. Cada mês, temos tido um faixa de 30 sócios novos, um por dia. Isso faz nosso trabalho ser mais gratificante, principalmente quando percebemos que a grande maioria são crianças e adolescentes.

14 hs - Nessa hora, todo mundo já voltou do almoço. A tarde costuma ser mais corrida. O movimento na biblioteca aumenta e o cansaço também. Essa semana foi extremamente cansativa pra mim. Na terça-feira, tivemos ensaio da "Casa de Brinquedos". Ensaiei com os atores uma nova coreografia, da música do "Trenzinho". Não fiquei muito satisfeito com o resultado. Às vezes, imagino a coreografia mas quando vamos executá-la não sai exatamente da forma que eu pensei, aí é hora de fazer uns ajustes até chegar exatamente onde queremos. Na quarta-feira, não aguentava de dor nas pernas. O ensaio tinha sido difícil, corremos uma maratona atrás desse trem hehe. Mas a noite foi de descanso. Fiquei no msn com a Lis e o com o Che, a quem ajudei a dar um jeito em alguns problemas no computador. Ontem a noite foi dia de ensaio de novo, com o pessoal do espetáculo "Somos todos do jardim da infância". Paulo não estava bem, e foi embora. Comandei o ensaio sozinho. Os atores apresentaram cenas de Nelson Rodrigues, num laboratório onde estamos estudando os conflitos. Depois, foi hora de nova coreografia, a primeira do espetáculo. Será "We go together", da trilha do filme "Grease - nos tempos da brilhantina". Baixou o John Travolta em mim e fomos ao trabalho. A coreografia ficou muito legal e os atores gostaram bastante também. Passamos a coreografia umas vinte vezes, e depois, no fim do ensaio, fomos para o texto. Saí de lá quase 10 da noite. Depois de passar pela casa do Paulo para entregar umas coisas, Che, Lis e eu fomos para o posto. Quando cheguei em casa, depois de ver o debate, meu caso foi "perda total", na cama.

16:40 hs - A tarde estava tranquila hoje. Paulo apareceu e depois de mais um papo sobre política, Che, Lis e eu ficamos na internet, investigando as fichas sujas dos candidatos a eleição desse ano. Percebi que o ambiente estava escuro. De repente, se ouviu um trovão. Fatinha foi até a porta e disse que vinha chuva forte por aí. Fui até lá ver e realmente, o tempo estava ficando feio. Em questão de minutos, a situação piorou. O vento que entrava pela biblioteca era cortante. As luzes da cidade se acenderam. Na rua, se via uma enorme cortina de poeira, correndo entre os carros apressados e as pessoas, que tentavam proteger os olhos. Nuvens negras apareciam, de um lado para o outro. A porta da biblioteca bateu. O dia estava virando noite. Minha mãe ligou no meu celular e eu pedi que meu pai, que estava no trabalho, fosse me buscar.

16:50 hs - Josi veio correndo do fundo da biblioteca assustada. Desligamos os computadores. Era hora de irmos embora, antes que o temporal nos isolasse na biblioteca. Che pediu pra ir antes da chuva, se despediu e sumiu de moto no meio da poeira. Josi e Marcinha fecharam as portas. Recolhi minhas coisas. Marcinha foi embora a pé, depois de eu pedir que tomasse cuidado. Os relâmpagos começaram e o céu estava cada vez mais escuro. Saímos apressados, depois de fecharmos tudo. Lis correu para a sua casa. Ela mora perto da biblioteca. O vento assustava. Agora, os motoristas dos carros estavam mais alvoroçados. Josi ficou nervosa. Ela não gosta de dias como esses, a assusta mortalmente. Entramos no carro da Fatinha para esperar meu pai chegar. Dizem que o lugar mais seguro em dias como esses é dentro do carro. O vento parecia que ia nos engolir. Alguns pingos grandes caíram no vidro. A chuva começou. Esperamos cerca de 10 minutos e nada do meu pai aparecer.

17 hs - Diante da demora, liguei para minha mãe, que me disse que meu pai não poderia ir me buscar pois o movimento no trabalho estava intenso. Meu pai trabalha numa farmácia da cidade, há anos,. Ele ganhou o respeito e a confiança da cidade por seu trabalho e tem uma freguesia grande. Bom, Fatinha ligou o carro e saiu para me levar para casa. Muita chuva no meio do caminho. A avenida José Gatto, que corta a cidade e fica perto da minha casa, parecia um grande lago. Carros na mesma situação que a nossa passavam por nós. Chegamos em casa e a enxurrada cobria a calçada. Há tempos não via um temporal desse aqui em Tambaú. Me despedi delas e entrei em casa. Minha mãe me esperava no portão. Ela me disse que meu pai tinha saído pra me buscar, assim que ela ligou para dizer que não precisava mais. A chuva continuava intensa. 10, 15 minutos e nada do meu pai aparecer. Começamos a nos preocupar. Aos poucos, o céu foi perdendo a sua escuridão. E a chuva começou a diminuir. Meu pai apareceu, são e salvo. Temporais geralmente são assim, nos pegam de surpresa na hora mais imprópria e causam transtorno para nós. Depois, ele passa e é hora de conferir os estragos que ele causou, as árvores que ele derrubou, as ruas que inundou. Mas, na maioria das vezes, ele só vem pra molhar a terra, lavar os telhados, encher os rios, e refrescar o tempo. É chuva passageira, com muito barulho e luz.

O meu quintal

A primavera chegou e trouxe a chuva com ela. A noite de quinta-feira foi chuvosa, e de folga. O ensaio de teatro foi uma noite antes. Aliás, correu tudo bem. Avançamos alguns passos. Meu bloqueio criativo dá sinais de desaparecimento. Os últimos dias tinham sido bem tensos,
complicados e demorados, aqueles dias que você não tem vontade de sair da cama e não quer ver a cara de ninguém, dias de ressaca moral, de arrependimento de ter dito o que não devia e pra quem menos deveria ouvir. Por isso, prometi pra mim mesmo que o final de semana seria bom. Antes dele começar, na sexta a tarde, Che e eu demos uma escapada da biblioteca, debaixo de chuva, e fomos visitar a feira do Meio Ambiente, no Salão Paroquial, promovida pelo Setor de Educação juntamente com as escolas municipais daqui de Tambaú. Exposições de reciclagem, historinhas de conscientização ambiental e teatrinho com as crianças! Na biblioteca, a frequência foi pequena. Dia de chuva é assim mesmo. Saí de lá às 5 com uma garoa e um sorriso no rosto porque a semana tinha acabado.
Saí a noite mais cedo do que de costume. Combinei de ir com a turma na abertura dos Jogos da Primavera, que é tradição aqui na cidade. Os alunos da escola Padre Donizetti, uma das mais antigas e importantes de Tambaú, são divididos em bandeiras, nas cores branca, azul, amarela e verde, e participam de campeonatos de várias modalidades de esporte. Passei quase toda minha vida na escola Padre Donizetti. Estudei lá desde o pré até a oitava série. Participei de muitos Jogos da Primavera. Na maioria, fui das bandeiras azul e verde, as que eu mais gostava. Jogar mesmo que é bom, nada. Só fiquei na torcida. Era uma semana que não tínhamos aula. A Lis nesse ano, está na bandeira branca. Ela estava lá no Ginásio de Esportes sexta-feira, representando a bandeira. Muitos alunos do teatro que estudam no Padre Donizetti, também compareceram. Ane e Isabelle são candidatas a Rainha dos Jogos da Primavera, premiação que ocorre na próxima semana. Carol e Caio são capitães da bandeira amarela. Bom, Che foi comigo na abertura. Nos encontramos na porta. A chuva continuava, mansa. Uma das minhas promessas para o final de semana era exatamente consertar o que não estava certo na minha relação com os meus amigos, arrumar o que estava estremecido. Era certo que eu não iria conseguir nada sozinho, sem a ajuda e a boa vontade deles se acertarem comigo também. Saímos do evento, Che, Lis e eu, debaixo de chuva, e sem muito destino. Passamos na praça, pensamos em ir no Deoclides, mas a chuva atrapalhava os planos. Mais cedo, quando ia para o ginásio, eu encontrei o Alan na frente do Santuário, onde ele trabalhava na quermesse. Nos falamos cordialmente e combinamos de nos falarmos mais tarde. Na falta de lugar pra irmos, decidimos ir na quermesse. Che não se animou muito, mas foi com a gente. Chegando quase lá, encontramos Éder que se juntou a nós. Na quermesse quase vazia, a pedida foi um pastel e uma cerveja. Pastel de quermesse só não é melhor que o pastel do japonês, da lanchonete da Paulista, onde comia todo domingo de manhã. Era sempre pastel de calabresa, e depois um quibe. Para beber, coca-cola. A noite estava agradável. Sentia que o clima estava bom entre nós. Eu precisava recuperar aquilo que era nítido que tínhamos perdido nos últimos dias, a agradabilidade e a fluência de estarmos juntos. Tudo corria bem até Alan se juntar a mesa conosco, e a velha rusga que existe no relacionamento dele com Éder, aparecer. Sim, Alan falou demais e acabou respingando em mim. Me senti um grande idiota, por estar ali, por ter ficado feliz de termos nos juntado a ele essa noite. E ele é assim, quando a bomba estoura, ele sai fora, pra depois aparecer com cara de cachorro sem dono como se nada tivesse acontecido. Dito e feito, ele saiu para tirar as toalhas das mesas, na quermesse que já estava no fim. E foi o fim pra nós também, que fomos rumo a praça. Ah, eu sou um cara que não frequenta missas, que bebe todo final de semana, que fuma compulsivamente, que tem ataques exagerados e comete sincericídios, sou ciumento, grudento, tenho amores impossíveis, platônicos, mal-resolvidos, mal-acabados e a distância, e sofro por cada um deles, falo palavrão, ah e o inferno me espera. Bla bla bla... Che tentou conversar comigo sobre o ocorrido, mas eu evitei, sei lá porque, talvez porque não queria estragar o clima que, pelo menos entre nós, estava bom, conversando sobre um assunto difícil e sem muitas respostas, que é a forma como o Alan trata todos nós. O fim da noite meio silenciosa foi no Mancha, de frente pra praça que, a essa hora, estava deserta.
No sábado, minha família se reuniu no casamento de minha prima, Andresa. Ela é filha de um tio meu, irmão da minha mãe, já falecido. Meus tios, meus primos, até os de Campinas, todos reunidos. O casamento foi na Igreja Santo Antonio que, pra mim, é a mais bonita da cidade. Minha prima sempre foi muito bonita, doce, carinhosa, inteligente, e, na minha infância, fui muito apegado a ela e ao irmão dela, Juninho, que é meu padrinho. A emoção tomou conta de todos quando ela, de braços dados com o irmão, entrou na igreja. Me lembrei muito de meu tio Odair. Sempre gostei muito dele também. Era o tio mais animado, que mais promovia churrasco, que me levou pela primeira vez pra ver o mar. Minha mãe conta que meu tio adorava bagunçar comigo quando eu era bem pequeno, que uma vez, saiu escondido comigo da casa da minha avó e me levou ao barbeiro, e pediu que ele raspasse a minha cabeça. Chamava-o de Tio Dail hehe. Quando tinha festa na casa dele, brincava com meus primos no parquinho das Pitas, jogava vôlei, brincava na areia. Tive uma infância muito bonita na companhia deles. Nos reuníamos todo final de semana na casa de minha avó materna, a vó Maria. Saudades imensas dela, que nos deixou quando eu tinha 7 anos. Lembro dos cafés da tarde que tomava na casa dela. Tinha sempre, sempre, leite com café e pãozinho quente com manteiga. Molhava o pão no leite, ficava uma delícia. Até hoje quando faço isso, é impossível não me lembrar dela. Nos fundos da casa dos meus avós, tinha uma cerâmica, onde meu avô trabalhou a vida toda. Nosso quintal da infância era imenso. Tinha horta, jardim, muito morro pra subir, muita madeira pra inventar brinquedo, muito formigueiro, muito espaço pra deixar a imaginação correr solta. Lembro da gente saindo pra se esconder perto do forno, quando fazia algo de errado. Era perfeito pra brincar de esconde-esconde. O quintal pegava o quarteirão inteiro. Meus primos eram todos mais velhos que eu, 3,4 anos. Eles aproveitaram muito mais. Quando eu ainda queria brincar, eles já estavam pensando nas namoradinhas. Mas o tempo que aproveitei foi bom. Foram muitos natais lá, muitos aniversários. Era pequeno nessa época, lembro de pouca coisa, mas as fotos me remetem a muitos momentos. Lembro claramente da semana que minha avó faleceu. Não entendia muito bem o que acontecia, mas minha mãe estava em Ribeirão cuidando dela. Eu fiquei com as minhas tias e meus primos nessa semana, na casa da minha avó. Saía da escola e ia pra lá. Foi uma semana que passamos muita coisa juntos, Acho que nós no fundo, sabíamos que nunca mais iriamos ver a vó Maria. Depois, meu avô e minha tia Rita, a filha caçula que ainda morava com eles, se mudaram. Ela não teve tempo de estrear
a casa nova. Lembro que senti muito nessa época, quando pensava que nunca mais iria ver nosso quintal. Poderia até voltar a vê-lo, mas aí não seria mais nosso. Os natais e aniversários passaram a ser na minha casa. Era doloroso pra todos, e minha família demorou bastante tempo para se recuperar. Mas a minha infância continuou. Lembro de uma época em que a nossa mania, minha e a dos meus primos, era brincar com saquinho de pano com feijão. Lembro também da Aline brincando comigo de apresentadores de programa de fim de ano, e dos nossos arranca-rabos fenomenais que aconteciam no final das festas, da minha farra com a Andresa e o Juninho na praia, da paixão do Nivaldinho pelo Palmeiras. do Ricardo e do Rodrigo, meus primos gêmeos de Campinas que me levavam pra comer cachorro-quente gigante e depois pra passear no EXTRA de madrugada, da Fernanda gravando as trilhas de novela dela pra mim em fita k7, da Thalita, que chorava pra eu brincar com ela, e quando eu ia brincar, não deixava eu pôr as mãos nos brinquedos, todos eles fizeram parte lindamente da fase que tenho mais saudade de minha vida, quando ela parecia uma caixa de lápis de cor, e era só colorir. Hoje, passo na frente da casa onde meus avós moravam e as lembranças são inevitáveis. Outros moradores estão lá, a casa foi reformada, mas imagino o quintal igualzinho como era antes, e por isso, pra não mudar nada em minha memória, que não me atreveria a entrar lá hoje.
O casamento me trouxe todas essas lembranças. Fiquei muito emocionado e feliz
pela Andresa, a quem desejo muitas felicidades. Depois da igreja, o encontro familiar continuou na festa, que aconteceu em Santa Cruz das Palmeiras, cidade do Leandro, o noivo. Bebidinhas, comidinhas, e corta gravata, e joga o buquê. Estávamos todos muito felizes. Quando deu 1 e 15 da manhã, meus pais e eu fomos embora. Tinha combinado de ir na Lex Luthor, com o Che e o Maikinho. Sábado teve show do Armandinho. Cheguei em Tambaú, liguei para o Che, como tínhamos combinado, e ele foi me encontrar. Eles já estavam lá, e o show ainda não havia começado. Estavam também Éder e Neno. A noite foi divertidíssima. Rimos, brincamos, jogamos futebol com latinha de cerveja. Estava tudo certo, todo mundo se entendendo e sem nada pra atrapalhar,
pra quebrar o vínculo. Uma hora e meia de show que mal vi passar. Não conheço muita coisa do Armandinho e estava mais feliz por estar ali, com meus amigos, depois de uma noite também especial com a minha família. Bebi até além da conta mas estava muito feliz. Na hora de ir embora, no meu celular, tocava rock. Éder e eu subíamos quando, num momento de extrema animação e felicidade, comecei a dançar. Dancei muito na rua debaixo da minha casa, no chão
molhado. "Highway to hell", "You shook me all night long", "Satisfaction", essas músicas fizeram a trilha do fim de noite. Ajoelhei no chão e fiz guitarra na coxa, pulei, vibrei. Naquele momento, eu amei a vida, amei estar vivo, amei ser quem sou e ter o que tenho. Quis muito que a Lis e o Che estivessem comigo ali, naquele momento, curtindo essa onda. A farra acabou quando, na esquina da minha casa, vi uma luz vermelha refletida na parede, piscando. Era uma viatura da polícia. Pra não nos metermos em encrenca, ficamos de boa. Não importa se um dia eu for parar no inferno, dane-se. O fato é que faço o melhor possível para ser bom para as pessoas que merecem, para andar na linha segundo aquilo que Deus, meus pais, e a minha própria vida, me ensinaram. A gente não está aqui a passeio, tem que viver, aproveitar, fazer o que tem vontade, ser feliz, curtir as fossas também, de verdade. Não dá pra passar tudo em branco. Eu vou andar por toda a minha vida atrás do sol, como um pássaro gigante, grande, da cor do
mar. Isso é de alguma música bem antiga, mas cabe aqui agora. Isso já é algum tipo de salvação.
Domingo, ainda chovia. O almoço foi em família na casa de minha tia, com o pessoal de Campinas. Divertido! Depois em casa, falei com o Che e combinamos a saída da noite. Foi legal! Lis apareceu, não a vi no sábado. Éder e Maikinho também apareceram. Algumas reações ameaçaram a paz, algo não estava bem, mas como o mal parecia ter sido cortado pela raiz, achei que estava tudo bem. A noite no Mancha terminou ao som de "Como nossos pais", com Elis, e "Exagerado", do Cazuza, a música que definitivamente me define, explica meu ser. Jogado aos seus pés, com mil rosas roubadas, exagerado, Eu adoro um amor inventado. Nos despedimos. Tudo parecia ter sido perfeito. Rimos, nos divertimos, estava tudo pronto para eu enfrentar a semana numa boa, começar a segunda-feira com o pé direito e continuar o fluxo de boas vibrações. Mas, infelizmente, não foi bem assim que tudo aconteceu depois.

Jogos mortais

Hoje é quarta-feira. A semana está na metade e, pra mim, é como se tivessem passado duas. Estamos no fim de setembro e as responsabilidades vão aumentando, responsabilidades no meu trabalho, e a de fazer por onde para chegar no fim do ano e dizer que 2010 foi um ano bom, responsabilidade de viver lances que valham a pena e que mereçam ser lembrados. Quase não tenho tido tempo livre. Quando tenho, é escrevendo, dormindo ou com os amigos arranjando mais problemas para o caos que a minha vida às vezes se transforma. A Quintal das Artes está produzindo 2 peças, onde Paulo e eu estamos trabalhando juntos. "Casa de Brinquedos" vem funcionando. Penso nas coreografias e, quase que instintivamente, elas surgem, brotam. Tenho uma certa familiaridade com a peça. Foi o primeiro espetáculo que participei, em 1998, quando tinha 13 anos e entrei para a Escola Municipal de Teatro, que era dirigida pelo Paulo. O trabalho flui na "Casa de Brinquedos". A outra peça, "Somos Todos do Jardim da Infância", vem me tirando o sono. Tenho bloqueios criativos. Meu cérebro pifa. Eu penso, penso e não sai nada. Uma hora passa. Tudo volta ao normal e as ideias aparecem. Já passei por isso outras vezes, sempre que alguma responsabilidade muito grande caiu no meu colo. Esses bloqueios não têm data marcada para irem embora, e a espera pela partida deles é angustiante. Hoje então, tudo está mais evidente. Foi marcado excepcionalmente ensaio, já que, quinta-feira, nosso espaço físico, a SAT, estará ocupado. Não sei como será a noite de hoje. Bom, a de ontem, tinha tudo pra não dar em nada, mas acabou em dor de cabeça.
O ensaio da "Casa de Brinquedos" foi produtivo. Uma nova coreografia foi ensaiada, e os meninos se apresentaram cantando "Aquarela", do Toquinho, num número musical que provavelmente entrará no espetáculo. Depois do ensaio, o destino foi o posto. Lis, Alan, Che e eu, subimos. Lá encontramos o Neno e a Edna, irmã dele, que é um amor de pessoa. Éder apareceu de moto por lá, tinha acabado de sair do trabalho. Leandro e Joãozinho, que completou 30 anos nessa semana, apareceram também. Paguei um pau pra camisa dos Stones que o João estava usando. Primeira atividade da noite foi um inocente jogo de UNO, como sempre fazemos. Mais cedo, na manhã desse mesmo dia, Alan apareceu na biblioteca. Che não estava porque foi fazer uns exames. Papo vai, papo vem, no meio dos certificados do Projeto Agosto Folclórico que estava imprimindo para as escolas, Alan iniciou um DR comigo. Sim, ele estava chateado porque, segundo ele, nossa amizade não é mais a mesma. Disse que não me importo com ele, que não faço questão da sua presença, que não converso com ele para saber dos seus problemas. Ele é ariano como eu e, desse assunto, eu entendo muito bem. Não acredito em horóscopo de jornal, de revista. Acredito nos signos e no quanto que a lua interfere nosso estado de espírito e comportamento. Quem nunca se sentiu diferente e/ou viveu uma situação atípica numa noite de lua cheia? "Vamos cantar o blues da piedade pra quem não muda quando é lua cheia". O fato é que muita água passou nesse riacho antes dessas histórias melancólicas e sem sentido que vocês acompanham aqui, meus queridos. Já falei aqui de quando conheci o Alan e o Che. Éramos inseparáveis, fazíamos tudo juntos, saíamos todos os dias. Foram madrugadas e madrugadas na rua falando sobre o tudo e não dizendo nada. Mas a vida não ia se resumir só a isso pra sempre. O tempo vai passando, outras pessoas vão cruzando nosso caminho. Nossa visão e a forma de encarar as relações vai mudando. Gosto muito do Alan, sinto sua falta quando saímos e ele não aparece. Nunca esqueci o quanto que ele e o Che me ajudaram num dos momentos mais difíceis que já vivi, que foi meu retorno para Tambaú. Sempre fui um pouco cruel com ele. Acho que sou um pouco cruel com todos os meus amigos. Essa crueldade nada mais é que a minha completa sinceridade com eles. Amigo serve pra isso mesmo, pra abrir nossos olhos, pra compartilhar alegrias e tristezas, e dúvidas. O Alan nunca entendeu isso e me vê como um cara de gênio forte e difícil. Nós somos muito parecidos. Enfrentamos dificuldades parecidas na infância, somos observadores e adoramos dar tapa com luva de pelica, numa forma de carinho e preocupação.
Bom, ontem a noite, ele me disse que pensou em tudo que conversamos na biblioteca e que viu que tenho razão. Tudo está bem. Nada me tira da cabeça que isso foi coisa do Che, que hoje negou tudo, mas enfim. Depois do UNO, com a quantidade boa de pessoas reunidas, eles resolveram jogar "Ladrão e cidadão". Sempre tivemos problemas com esse jogo. Tivemos brigas feias em outras épocas por causa dele. Lislaine sempre tentou apaziguar as situações. Ontem, nessa hora, ela já tinha ido embora. É um jogo onde se usa o poder de persuasão, grandes blefes e o próprio argumento verdadeiro. Alan, Che e eu sempre levamos o jogo muito a sério. Eles podem até dizer que não, mas, pra nós, ganhar "Ladrão e cidadão" um do outro, virou uma questão de honra. Alan e eu somos bons na persuasão e usamos também um tanto de teatro nas nossas argumentações. Che já abusa da malandragem e das caras e bocas.
Começamos o jogo. Cinco cidadãos e três ladrões na jogada! O primeiro a sair foi o Neno: cidadão! A segunda vítima votada pela maioria, Leandro: cidadão! Eram 3 ladrões contra 3 cidadãos agora. Nessa hora, minha desconfiança era do Che, por causa da mudança repentina de voto e pelos olhares sacanas. Já tinha desconfiado também da Edna e do Éder, que lançavam sorrisinhos sarcásticos. O Joãozinho, eu tinha certeza que não era ladrão. A maioria foi no Che: BINGO! Achamos o primeiro ladrão. Para os cidadãos ganharem, faltava achar um ladrão, mas aí já estava meio óbvio. Che e Alan não votaram um no outro nenhuma vez. Eu, Edna e Éder fomos no Alan. GAME OVER! Achamos o segundo ladrão. E ele matou o jogo entregando o terceiro, pasmem, Joãozinho. Aí foi só alegria. Vibrei, comemorei muito, fiquei hiper feliz. Parecia final de Copa do Mundo. Ganhar do Alan e do Che nesse jogo, como dois ladrões na jogada, é motivo de comemoração mesmo. Os caras são feras nesse jogo e, sempre que puderam, se uniram contra mim na hora da argumentação. Ah, comemorei mesmo, como eles já fizeram várias vezes quando se saíram bem no final de outras rodadas em outros tempos. O Che não gostou muito. Quando ele se irrita, sai dizendo coisas sem pensar, e não consegue separar o que é sério e o que é brincadeira. Poxa, eu convivo com ele há bastante tempo, e hoje, durante boa parte do dia. Então, acho que sei diferenciar quando está tudo bem e quando há algo estranho acontecendo. Somos muito próximos e algumas atitudes ganham uma proporção enorme, pro bem ou pro mal. Temos sorte com o fato de que tudo se resolve logo. A gente conversa e se acerta. A amizade e o respeito falam sempre mais alto, mas segurar a onda desses altos e baixos é sempre muito difícil. Não podemos prever o tamanho do conflito antes dele acontecer, e o tamanho da rachadura que ele vai causar.
Nosso final de semana foi divertido. No sábado a noite, Che, Lis e eu fomos para um sítio, onde toda família do meu pai se reuniu para comemorar o aniversário de uma prima minha, a Naiara. Revi muita gente que há muito tempo não via. Foram com esses primos que, na minha infância, eu rolei na terra, brinquei no barro, pulei fogueira, cacei vagalume, andei a cavalo, bebi leite da vaca tirado na hora, com o copo cheio de achocolatado e açúcar. Foi com eles que fui mais moleque. Alguns eu nem lembro mais o nome, eram tantos, mas foi nostálgico. A Lis, o Che e eu dormimos lá. Três da manhã, quando todos os convidados que não iam dormir lá, já tinham ido embora, ficamos sentados numa mesa, debaixo de sereno, ao som de rock no celular. Um dia, eu tive alguém importantíssimo em minha vida, alguém que dizia que ia estar comigo pra sempre. Nós nunca íamos nos abandonar, éramos fatalmente inseparáveis. Mas o destino não cumpriu a promessa e todas aquelas palavras e declarações viraram pó no vento. "O mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos". Tem vez em que a culpa é nossa, do nosso egoísmo, nosso orgulho e da imbecibilidade de acharmos que somos insubstituíveis. Naquela noite, depois de conversarmos sobre esse assunto, entramos no quarto para tentarmos dormir. E quem disse que conseguimos? Foi um tal de dar travesseirada na Lis, "montinho" no Che. E conta história de terror, coloca música no celular e puxa o outro pelo pé, e conversa, e fala, fala sobre religião. Conseguimos dormir com o dia já amanhecendo. Depois, umas dez e meia da manhã, acordamos. Aí era só esperar o almoço, a cochilada necessária logo após, um futebolzinho tímido no campo, uma caminhada com algumas fotos, para irmos embora. A noite, mesmo exausto, pregado, eu saí com a turma. Umas duas ou três horas no Mancha, e descemos. Saímos de lá quando começou a tocar Beatles. Droga! Na esquina de casa, o clima deixou claro que não há só uma dupla de amigos em crise por esse reino. Leandro e Éder tiveram a sua DR, mas dessa vez, fui só espectador. Pouco se falou, mas exatamente o silêncio que foi crucial na hora de buscar certas respostas. Tudo acaba passando, mais cedo ou mais tarde, até o dia que não passar mais nada. o dia em que as águas desse riacho irão correr pra outra direção.

Clube do Bolinha

Na sexta-feira, Lis foi para o Hopi Hari, com a turma da escola, e passou o dia todo por lá. Saiu de Tambaú às 6 da manhã, e voltou às 2 da manhã de sábado. Tentei falar com ela, achando que ia chegar mais cedo pra gente poder sair, mas não rolou. Alan está ajudando na quermesse de Nossa Senhora Aparecida, toda sexta e sábado, na praça do Santuário. Ele faz parte do Grupo de Jovens, do qual todos nós já participamos um dia. Foi quando conhecemos a Lis e o Leandro, que logo começaram a fazer parte da nossa turma. O Alan é o único que ainda frequenta, e acredito que seja sempre quem mais precisou estar lá. O Éder não tem dia para aparecer. Ele trabalha num supermercado aqui da cidade e às vezes sai de lá 10, 11 da noite. Quando está muito cansado, nem aparece. Se vai aparecer, liga sempre no meu celular pra confirmar onde estamos.
O Che e eu nos falamos a noite na sexta, e combinamos de sair. Nos encontramos no posto, como toda sexta-feira. Eu sempre chego primeiro e meu destino é a loja de conveniêcia. Brahma Malzibier... hummm tão docinha... tá virando vício! Aí espero o Che e a Lis, e quem mais estiver, chegarem e decidimos nosso destino, que, no fim, acaba sendo sempre o mesmo hehe. Quando o Che chegou nessa sexta, nosso papo foi sobre música, sobre jazz e blues. Eu gosto muito de blues, do americano também. No Brasil, Cazuza nos presenteou com alguns clássicos. Lembro de "Bilhetinho Azul", da época dele no Barão:

"Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar
O meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul, com seus garranchos
Humm que dizia assim: "Chuchu, vou me mandar, é, eu vou pra Bahia, talvez volte qualquer dia
O certo é que eu tô vivendo, eu tô tentando, uhh, nosso amor foi um engano".

"Hoje eu acordei com sono, sem vontade de acordar
Como pode alguém ser tão demente, porra-louca, inconsequente e ainda amar?
Ver o amor como um abraço curto pra não sufocar".

O Che lembrou de "Telefone", do Tim Maia. Ele adora Tim Maia, sempre cantamos músicas dele nas madrugadas afora, chapados...

"Eu bem que te avisei, pra não levar a sério o nosso caso de amor
Eu sempre fui sincero e você sabe muito bem
Eu não te prometi nada
Não venha me cobrar por esse amor
Pois esse sentimento eu não tenho pra te dar
Sinto muito em te dizer, vê se tenta esquecer
Os momentos que passamos, que juntinhos nos amamos
Leve um beijo e adeus."

Meus amigos modificaram bastante, ou abriram meus olhos, para novas possibilidades na música. A Lis já me apresentou muito rock n' roll. O Che também, e rock nacional, mpb. Temos sim muitos gostos em comum nesse sentido. Pra ele, eu já mandei bastante música do Cazuza, Tom Jobim, da Shakira também, já que ele também é fã, de certo modo, de música latina. Ultimamente, ele tem me mandado vídeos dos episódios do Chapolin. Temos nos divertido muito, comentando as cenas. Nós somos fãs de Chaves e Chapolin desde crianças. Bom, tínhamos passado dois dias meio estranhos. Não conversamos muito, os dois com um mau humor danado, sem muita explicação. Quinta-feira, no teatro, o Paulo exibiu para os alunos o filme "Across The Universe", que tem toda história amarrada em cima de 33 músicas dos Beatles. Que maravilha! Um filme delicioso, com uma história de amor forte e comovente, que resistiu ao tempo, a distância, e a guerra. Tenho uma certa história com a obra dos Beatles. Sempre curti muito "I want to hold your hand", "Yellow Submarine", "Can't Buy Me Love", "Let It Be", "Hey Jude", "Help", e principalmente "Don't Let Me Down". O Pedro, fã incondicional de Beatles, que estudou comigo no Teatro-Escola Célia Helena e que foi um grande amigo que tive, me presenteou uma vez com um cd de uma banda em que participava. No cd, ele cantava "Don't Let Me Down". Foi quando conheci a música e amei logo de cara. Assisti o filme do lado do Alan, vidrado. Não perdi um segundo e, aproveitando a certa melancolia, ok, a forte melancolia, ah tá, a melancolia filha da puta que me fez chorar copiosamente no banheiro de casa, me emocionei no fim do filme também, que termina com um olhar apaixonado e esperançoso do casal protagonista, na cobertura de um edifício, nos levando a imagem da última apresentação dos Beatles. Essa noite foi foda, foi tocante! Sei lá, às vezes a gente segura onda demais, não bota pra fora aquilo que precisa dizer, que precisa fazer, as declarações de amor, de ódio, aí chega uma hora que tudo transborda, e a gente chora, chora pra valer, sentido mesmo. É uma forma de descarregar o peso. Fomos pro posto mas nem quis ficar muito por lá. Saí fora, sentei na praça, sozinho, com meu mp3 e uns 2 ou 3 cigarros. Queria essa solidão naquela hora. Não tinha onda pra segurar, nem muito o que dizer, nem fazer, nem quem amar, e nem quem odiar graças a Deus.
Ficou tudo certo na sexta a tarde, com uma notícia que veio pra salvar o final de semana. A peça "Sexo dos Anjos" foi classificada para o competitivo Festival de Teatro de Varginha. Foram 180 inscrições e nós ficamos entre as 10 selecionadas. O Paulo me ligou, na hora do almoço, me contando. Fiquei eufórico, queria contar logo pro Che a nossa conquista. Voltei para a biblioteca, deixei o estranhamento de lado, e dei a notícia pra ele. Ah, ficamos felícissimos. Isso nos alegrou muito, e o final de semana estava salvo, depois de uma ou duas palavras trocadas no fim do expediente que fizeram uma enorme diferença e que deixaram tudo bem de novo.
Depois do papo musical, dando uma volta pelo centro da cidade, encontramos o Elton e o William. Conheço os dois há algum tempo, através do Che também. William estava empolgado. Ele ia pra São Paulo no sábado para curtir o show do Scorpions. Falei com ele no dia seguinte e ele não cabia dentro de si de tanta felicidade. Ver a sua banda favorita cantando a trilha sonora da sua vida ao vivo, é algo pra não se esquecer nunca. Já passei por isso e foi louco, muito louco. Provavelmente, a chance de você ver a sua banda favorita uma única vez tocando ao vivo num show, é grande.
Bati os olhos na barraca de tapioca, e a vontade de comer uma de chocolate foi maior que eu. Conversa vai, conversa vem, Che e eu sobramos de novo. Sentamos na praça e sem muita ideia do que fazer, continuamos a falar. Fala do festival e fala do Cesinha, que está prestes a voltar a sair com a gente. Ele está bastante recuperado do acidente que sofreu no trabalho, e já recebeu permissão do médico para sair. Saudades do Cesinha! Disse pra ele no msn que vou enchê-lo de porrada quando o encontrar, e ele me disse que já acionou seus advogados hehe. Um tempo depois de conversa, Leandro apareceu. Nós três nos damos bem quando estamos juntos, sem a interferência das pessoas que adoram vilipendiar o Leandro, que o pegam pra Cristo mesmo. Gosto bastante dele, apesar de tomar certas atitudes às vezes que me tiram completamente do sério. Demorei a acostumar com o jeito pacíficador que o Leandro vê as situações, a própria vida, o jeito de sempre "deixar pra lá". Ainda me incomoda, mas hoje eu entendo mais. Sei lá, a gente tem que viver alerta. Recebemos sinais e mensagens todo tempo, bons e ruins, que basta um pouco de intuição para sabermos como aproveitar. E também não podemos deixar as pessoas mal intencionadas fazerem o que bem entendem de nós, não. Tem que se rebelar, cair fora de gente assim. A noite já tinha virado um Clube do Bolinha. No bar do Geraldo, que fica na praça, onde antigamente ficava a locadora onde eu alugava os filmes do Pestinha, e os cd's do Rei Leão e do Meu Primeiro Amor, o rock comandava no dvd ao vivo. Nós três e cerveja! E cigarro! Falamos de mulher, de política, de nós mesmos. Comecei a notar a cerveja fazendo efeito quando vi que não tinha percebido que meu copo estava furado, e que por isso, minha calça estava molhada. Detalhe!
Os caras foram jogar sinuca. Eu fiquei lá fora mesmo, com um cigarro solitário, e o rock de companhia. A noite estava tranquila, sossegada, sem stress. Uma última cerveja antes do Che ficar tentado a comprar os dvd's dos Cavaleiros do Zodíaco. Não, mas ele não comprou. No ponto de ônibus, sentados, a rua já praticamente deserta, batia um vento cortante. Não se via estrela no céu, e nem a lua. Ameaça de chuva? Não! Achamos que fosse, mas não choveu nessa noite. Curamos nossa solidão cantando. Nossa, já cantamos muito nessa vida juntos. Uma vez no ano passado, bebemos muito numa balada no Centro Cultural. Fomos pra praça 4 da manhã e cantamos muito. Eu fiquei deitado no banco da praça com garoa caindo na cara. O Cesinha, o Alan, o Éder e o Maicon estavam nesse dia também. Boêmio e inocente demais! Nessa sexta, Che e eu fomos de Roupa Nova, Só pra Contrariar, Alceu Valença, Cazuza, Juan Luis Guerra, Caetano etc... Foi legal! Há tempos, não tinha uma noite tão divertida, sem cara feia, trepidações, sem meias palavras, doces elogios escondendo fortes críticas. Quando está tudo bem entre nós, meus amigos são os melhores do mundo. Será que não são?

...

Eu estou na contra-mão de tudo. Os carros passam a 1000 por hora e não me atropelam. Caras feias me olham e me julgam. Me sinto sozinho essa noite. É o estopim. Tenho guardado muita coisa, muito lixo. Seguro firme e enfrento tudo de peito aberto, mas tem hora que não dá. O copo enche e derrama. É horrível essa sensação de sempre querer estar em outro lugar. Hoje, a solidão me cabe como uma luva de 5 dedos que me massacram. Vontade de sair correndo, de desaparecer no breu, de não deixar vestígios. Abro mão essa noite de qualquer esperança de que algo que já é velho venha a acontecer. Quero o novo, quero querer o novo, ver outras e novas possibilidades, jogar fora pedaços perdidos de histórias inconcretas, e fechar esse livro. Estou cansado, exausto. A vida tem passado por cima de mim e me estagnado. Eu estou na contra-mão de tudo. Quero paz quando todos estão com armas em punho. Quero guerra quando as bandeiras brancas estão na janela. Quero dançar no sofrimento, sofrer doloroso em dia de festa. Quero o amor impossível, quero o amor doente, que sangra, quero o novo amor que chega como brisa mansa, mas não cobre o vazio. Quero todo mundo a minha volta tocando violão enquanto canto. Quero piano mágico que toca sozinho no escuro. Quero cerveja em dia de semana, quero água em encontro de bêbados. Quero a minha vida de volta. Quero poder caminhar sozinho, sem precisar que ninguém me complete, nem que segure a minha mão, menos ainda que me bata nos ombros com piedade, que me dê abraço afastado. Quero perder a sensação de que fui inventado. Quero me reinventar, ou simplesmente lembrar que eu sou. Quero água de riacho passando e levando tudo embora, de uma vez, e deixando apenas eu, o que eu era, meus gostos, minhas músicas, minhas fotos, minha gente, meu coração, meu, só meu. Estou caindo fora, pra voltar a ser eu.

Três visões

Eu sempre acreditei na missão que nós todos temos na vida. Nunca achei que a gente veio ao mundo assim, a passeio, como uma consequência da noite prazerosa (ou não) que um dia nossos pais tiveram. Não gostaria de saber também que nasci simplesmente porque a tv estava quebrada naquela noite, ou então porque minha mãe esqueceu de tomar a pílula, ou nem sabia o que era pílula e nem como se fica grávida. Acredito em missão. Todos nascemos com um propósito, com um destino traçado. Se estamos aqui hoje, e vivendo tudo isso, é porque tinha que ser assim mesmo. Minha vida sempre foi de muitas coincidências, algumas que me fizeram o cara mais feliz do mundo, e outras que me fuderam legal, que mudaram toda a rota que era certa, e que me fizeram ver que a minha missão não era a que eu imaginava. Essas coincidências são exatamente o que me fazem pensar que tudo está planejado. Sim, temos o livre arbítrio de fazer nossas próprias merdas, e pagamos por elas, mas nada que fazemos foge do script. Pense na quantidade de pessoas que já passaram por sua vida, algumas delas por uma temporada, um dia, apenas um encontro, e elas surgiram na hora certa, no momento em que precisava delas, e por aqueles instantes, elas modificaram toda sua história pra sempre, e você nunca mais foi o mesmo.
Perdido nessa ideia, eu, que sou um ariano convicto, ariano com A maiúsculo, procuro saber as respostas dos porquês, e tento entender o que significa tudo, o porquê de tudo. É uma forma de enxergar tudo com olhos de passagem, de achar que não vai durar tanto tempo, que tudo vai passar e que lances melhores, e piores, virão.

Os três dias úteis da semana prometiam passar bem rápido. Que nada! Foram grandes, longos, pesados... Quinta-feira a noite, eu joguei a toalha. Já não prestava mais pra nada. Eu olhava as cenas no teatro e meu cérebro não funcionava, não reagia a nada, a nenhum estímulo. Estava vindo de um final de semana atribulado, de puro cansaço mental. Duas baladas quase que seguidas, com um dia de trabalho no meio, e muita conversa, muito blablablá doído, muito reality show pro meu gosto. Tem dia que o que eu mais quero é ser um cara normal, que bebe, que fuma, que joga futebol, que come mulher, que cospe no chão, coça o saco, ouve samba e funk, que rala a semana inteira num emprego desgraçado, que vota na Dilma e tem um fusca. Simples assim! Na terça, feriado de 7 de setembro, a gente arriscou uma aventura. Fomos na casa do Alan. Estava escuro, ele mora nos fundos e não sabíamos se estava em casa. O Che ficou no portão. A Lis e eu, com medo do possível cão que rondava por ali, fomos andando pelo corredor até chegar na casa do Alan. Mas o único sinal do cão que rondava, foi algo viscoso em que pisamos, atolamos, enfim. A cena foi linda. A Lis calçava seu imponente sapatinho de lacinho preto com salto, que se viu gelatinoso por alguns instantes. Fomos lá só pra isso né, pois o Alan não estava em casa. Ele apareceu na praça depois. O Leandro, a gente encontrou no meio do caminho, e fomos todos juntos pra casa do Alan jogar UNO. Já jogamos muito, antigamente era toda noite. Discutimos muito por causa das cartas de compra, e das combinações que fazíamos pra ferrar uns com os outros. Mas dessa vez, o jogo foi tranquilo.

"Sexta-feira, dia 10/09/2010 era uma sexta comum e eu rezando pra que chegasse a noite.. Acordei cedo, fui para a escola. Ao voltar almocei e lá vou eu para a biblioteca .... Encontrei Zé, Che, Fatinha (ela não teve que conta a Historia da dona Baratinha) e Josi.. Atende de lá e atende de cá, da um Berro no Zé, chama a Josi, e o Che não precisou mudar as caixas de lugar. Durante o dia, lá vem o Zé com esse tal de Shinguilingui ou Miauuu.. Final do dia... Combinamos de ir no (Deo)clides, foi Sossegado.. o Eder Apareceu por lá, Fiquei só na coca e os meninos na Cerveja.... Conversa vai e vem .... o Alan chegou depois rir com agente mas logo foi embora.... A mesa terminou com Zé e Che, eu fui mais cedo para casa.." (Lislaine)

"Sexta-feira, dia normal de trabalho na biblioteca, meio cansado, mas feliz por ter chegado o final de semana, não que o final -de- semana seria especial, mas por que eu só pensava em descansar... hehee... isso depois de uma semana mais curta em circunstâncias do feriado de 07 de setembro. No entanto, essa semana começou de verdade na quarta-feira. Trabalhamos só três dias, mas mesmo assim... o final de semana é sagrado!!!
Meus amigos, companheiros de aventuras ( e de trabalho )... hehehe... e eu, passamos o maior tempo possivel juntos, eles são muito especiais e onde eles vão, eu tambem vou..., entao, ainda na biblioteca, começamos a combinar, qual seria a boa da noite. Na nossa cidade, não há muita opção de lazer nos finais de semana, temos a praça, um barzinho aqui, um outro ali... umas baladas aos sabados, afinal, a cidade é pequena!!! Combinamos então de ir num barzinho, meio escondido, mas até que é um espaço legal, muito bom pra beber com os amigos quando se está de boa, hehee... pois então..., lá fomos nós, conversando sobre as coisas da vida, alias, fazemos muito isso...!
Bom... meus amigos, são o Zé e a Lis, duas otimas pessoas, confiabilíssimas, e sem comentários... só há elogios pra eles, com esses dois fui no bar, pedimos umas 3 cervejas, e uma coca, pois a Lis não bebe, conversamos sobre as palhaçadas no horário eleitoral, música, vida etc..., a noite foi curta, ficamos um tempo lá e fomos embora. O pai da Lis veio buscá-la e sobramos o Zé e eu... hehee, acabamos a noite falando sobre o modo com que ele escreve o blog, se é deprimente ou não..., a minha opinião é que existem formas e estados em que se escreve, por exemplo... você pode usar uma linguagem cômica, romanceada, ou então fictíca, e tudo depende tambem do estado de espirito em que se encontra na hora de escrever, mas eu não acho que o blog do Zé seja melancólico!
Assim, terminamos a nossa sexta-feira... e combinamos ainda de tomar uma cervejinha no sábado a tarde, hehee...!!!" (Che)

A noite de sexta-feira chegou. Os três mosqueteiros se reuniram no posto, como sempre, animados com o que o final de semana reservava. Não, nossa vida não se resume só a sexta, sábado e domingo, e nem nos encontramos só nestes dias. Na verdade, estamos juntos todo dia, o dia todo. Fomos no Deoclides, com o Éder e o Alan, que apareceu por lá depois. Passamos antes na praça, onde as barracas que vieram a Tambaú no ano passado, estão de volta. Isso gera um movimento maior por ali. Vendem tapioca, acarajé, e outras comidinhas com coco, e apimentadas, da Bahia. E tem as bugigangas também. Preciso passar por lá e adquirir alguns itens, aliás. Bom, no Deoclides, o mais falante da mesa era eu. Sabe aquela sensação, "ahhh me mandem parar, por favor..."? Então... Os meninos estão desanimados. Sinto principalmente o Che desanimado há alguns finais de semana. Nele, o desânimo fica mais evidente porque ele é o meu companheiro das risadas, piadas, dancinhas e lembranças esdrúxulas. Tenho uma leve ideia do que porquê isso vem acontecendo. Já tentei falar com ele, mas não saiu nada, então, só observo. Falei (amos) de sexo, de maconha, de porre, de música, de política, do avião da TAM que caiu em Congonhas, da torcida do São Paulo quebrando a Paulista inteira... Foi papo pra horas! O Éder era o mais quieto. Ele está com a perna toda enfaixada. É a segunda vez em menos de duas semanas que cai de moto. Dessa vez, foi um pouco mais grave. Imagina eu, quando tirar a carta. Espero que já tenham providenciado os postes de borracha... O final da noite foi uma discussão infundada sobre o quanto que esse riacho aqui é de águas depressivas, ou não. Essa parte, só o Che e eu íamos aguentar mesmo. E fomos nós que ficamos uns 20, 30 minutos, pensando em teorias que expliquem isso aqui tudo.

"Eram 7:30 hrs da manhã, quando o celular despertou , primeiro aviso de que teria de acordar pra fazer a tarefa... mas enfim, virei para o lado e dormi até às 8:30. Xiii... Atrasei, 10:30 hrs era pra eu estar no Inglês.... Fui depois de 1 hora de aula. Breakfast uhuhu.... Vou atacar as bolachas pra enfrentar mais uma hora de aula.... acabou! Hora do almoço! Pensei em ir dormir mas 14 hs o Zé ligou falando que ele e Che iriam estar na praça conversando.. E Lá vou eu só que antes dei uma passada na Loja claro pra ver o preço de um fone de Celular novo.... Na praça encontrei Zé e o Che... Detalhe: Zé estava colocando o chip no celular do Che... Andamos um pouco pelo centro e voltamos para a praça, vimos até uma noiva entrar na igreja. Fiquei até umas 19:00 hrs depois fui pra casa e dormi. Acordei na hora de tomar banho pra sair. " (Lislaine)

"No sábado, acordei umas 10 horas se bem me lembro, não fiz absolutamente nada de manhã, só a tarde que eu tinha combinado de sair com o Zé e a Lis tomar uma cervejinha, ir nas lojas, etc..., combinamos de nos encontrar umas 2 horas da tarde, e lá fomos nós, hehee... nos encontramos na praça, tava um calorzinho, nem tinha muitas pessoas no centro da cidade, ficamos por lá um pouco, depois fomos até a papelaria, ver algumas coisas por lá, passamos depois em uma loja, onde vendem as camisas de rock, e lá nós ficamos mais, escolhendo alguma coisa, são muito legais as roupas... por fim eu comprei uma camisa e o Zé comprou outra. Passamos em uma outra loja, dessa vez para ver se comprariamos as entradas para o Baile Havaiano... estava meio cara, mas mesmo assim compramos... alias, não tinha nada na cidade mesmo...,depois, procuramos um lugar pra comer, e voltamos na praça. Ficamos lá mais um tempo, até escurecer... estava começando um casamento na igreja, ficamos vendo e pensando em músicas propícias pra casamento... hehehe... saiu cada coisa!!!
Fomos embora, ja eram umas 7 e meia da noite, cheguei em casa, tomei um banho e desci de novo, pra encontrar o povo e ir pra balada, ihhhu!!!" (Che)

Sábado a tarde, fomos às compras. Sim, havia uma promessa há tempos de conhecermos a loja de rock que abriu aqui na cidade. e finalmente fomos juntos lá. Eu já usei camiseta de banda, em outra época, quando cheguei em São Paulo. Tinha uma do Lennon, só do rosto dele de óculos, que pegava a frente toda da camiseta. Foi a que usei na primeira balada que fui por lá. Dessa vez, comprei uma do The Doors. O Che, ficou com a do Kiss. A tarde varou o comecinho da noite. Nós dois, e mais a Lis e o Alan, brincando de montinho no banco da praça, infantilóides que não foram convidados para o casamento que rolava na Igreja Santo Antonio, e que até agora a gente não sabe de quem era.

"Chegando na praça, a noite, lá estavam os dois... o Zé e a Lis, em frente ao posto... nos encontramos lá, e descemos, alias, vi tambem o Piri, o Edson que é um amigo meu que faz 1 ano mais ou menos que eu não via. Chegamos na praça, e o Maicoool e o Elton estavam lá... ficamos um pouco lá, tomamos uma garrafa de vinho, e lá fomos nós pra balada cara... só que dessa vez fomos só eu, o Zé e o Maicoool, alias fomos a pé, e é meio longinho o lugar, hehee...
Chegamos lá, entramos, estava o Jardão logo na entrada, hahaha... ele ficou com a gente e lá fomos nós...! Era uma festa de axé, que aliás nao vejo nada em comum com baile hawaiano... o que é que tem a ver??? Mas enfim, eu ja fui em festas muito melhores com preços muito menores, estava frio e o povo tambem não tava muito animado, saiu porrada lá, eu passei mal tambem, ... enfim..., fomos embora!!!" (Che)

"Na rua, várias voltas até encontrar o Zé..... Che apareceu depois. Na Praça encontramos Piri , Elton. . 23:30hs, lá vão Che, Zé e Maicon pro baile. Eu, para a cama ..." (Lislaine)

O sábado foi uma incógnita a semana toda. Combinamos São Paulo, Santa Rita, Santa Rosa, e até Argentina. Nos empolgamos bastante quando estamos com dinheiro, mas sempre escolhemos a mais comum e batida das opções: baile hawaiano do Ipê Tenis Clube, um dos clubes da cidade. O preço salgado do ingresso tirou a ideia de ir de nossa programação, mas sei lá, fiquei com vontade de ir quando soube que a Aline, minha prima, e a Giovana iam. Compramos os ingressos e convencemos o Maicon a ir também. Passada rápida pela praça, aquele velho e bom vinho no Mancha ao som de Raul Seixas. Me deu um sono, um cansaço, mas não podia desanimar. Nenhum casaco meu combinava com a noite, com o possível clima da festa, então, saí só de camiseta. O Che e o Maikinho entraram nessa também. No caminho, o frio já apareceu. Êta avenida gelada, e a gente a pé. Chegamos numa boa. Quiseram selecionar o público, mas acho que selecionaram demais. Não tinha muita gente, como nos marcantes bailes hawaianos em que já estive no Ipê, e tudo parecia mais um jantar de negócios onde o traje obrigatório eram as estampas de frutas e flores, e bla bla bla, sim, muito bla bla bla. Encontramos o Jardão por lá. Ele tocou no final do baile, com uma dupla que canta sertanejo universitário, o que mais se ouve por essas bandas nos últimos tempos. O show principal da noite era de axé, da cantora Jana Lima, que já esteve por aqui no ano passado. Não, eu não curto mais axé, mas poderia ter percebido isso antes. O que salvaria a noite seria o whisky com energético que Che e eu combinamos de tomar. Mas essa foi mais uma desistência do sábado, por motivos nobres, mas foi. O Che não estava bem, passou meio mal. Eu nessa hora me acabava na cerveja. Tinha encontrado a Aline e as amigas delas por lá, mas a noite por ali também não parecia nada boa. A Lislaine chamou no dia seguinte quando soube de tudo, a noite de sábado de "a balada das desilusões". É, a carência bateu forte em mim. Num descuido, em que todos foram ao banheiro, e eu fiquei sozinho, peguei meu celular e mandei um "eu amo você", numa mensagem de ddd 11. O que eu não queria e não devia fazer, que me controlei durante semanas, caiu por terra assim, em segundos, por causa de algumas cervejas. Depois, foi só chá de banco de cimento o resto da noite, entre cigarros inexpressivos e silenciosos. E o frio era cortante, doía. Uma briga no fundo rolou, quando destruíram parte da decoração da festa, bem #tenso. Eu não estava no meio não, nós só assistimos. Eu crio tanta expectativa quando saio de casa no final de semana. Nunca quero que seja normal, comum, só nos dias em que fico de saco cheio. Eu acredito ainda que o vento vire e que lances inesperados aconteçam, que eu receba um olhar, um toque que vai mudar tudo pra sempre, e que vai botar cor em tudo. Mas sempre volto pra casa do mesmo jeito que saí. A única diferença é o acúmulo da sensação de que tudo é uma grande cilada, um grande engano, e que o destino insiste em continuar me passando a perna. Nesse baile aí que vai passar em branco na minha história, eu ganhei uma flor, arrancada de um dos arranjos da festa. Ganhei do nada assim, sem intenção nenhuma, sem pretensão nenhuma, só o mesmo jogo de cartas abertas que está na mesa há tempos, e que não muda nunca. Foi quase um espasmo muscular. Mas na hora, foi tão significativo, tão importante, e se tornou o melhor e o pior acontecimento da noite. Tem dois lados pra ver tudo isso. O lado de que isso não muda nada no próximo conto, pois não significou nada, e o lado de que, se fosse verdade, se tivessem me dado a flor do jeito que eu recebi, tudo seria maravilhosamente diferente e mágico. De qualquer forma, ela me fez companhia até em casa. Eu guardei, num canto escondido do meu quarto. Acabei de olhar e ainda está viva, colorida. Talvez demore ainda pra secar, ou talvez morra logo, de sede. O tempo vai dizer, e o acaso vai fazer dela o que quiser.

"No domingo, acordei mais tarde, só que, felizmente, não estava com a ressaca que eu esperava, mas tomei o meu velho e bom Engov, e já estava bom de novo, pronto pra outra, mas dessa vez nada de comer pizza de ovo, eu comi antes de sair no sabado, bebi vinho e cerveja e acho que foi isso que me fez mal no baile, sem contar que o almoço no domingo era a mesma pizza de ovo... não podia sentir nem o cheiro!!!
Ao chegar a noite, descemos novamente pra praça, encontramos todo o povo por lá..., eu, o Zé, a Lis, o Maicoool, o Elton, o Leandro e o Eder... ficamos lá conversando e fomos pro Bar do Mancha tomar o nosso sagrado vinho ao som do rock n´rooll, hehee.... Alias, teve outra porrada lá em frente, hahahhaa... só que dessa vez eram duas mulheres. Depois do vinho, fomos na lanchonete comer, e assim encerramos nosso final de semana...!!!" (Che)

O aniversário do Éder foi no sábado, mas por causa do baile, ele não apareceu. Os cumprimentos aconteceram no domingo a noite. A rua estava lotada de gente e o Mancha foi nosso cenário de novo. Vinho, e atrás de nós, um arranca-rabo daqueles entre duas gurias. Deprimente! Logo depois, na frente do mesmo Bar do Mancha, um beijo entre dois frequentadores agitou o local. O contraste do amor e do ódio, foi o que eu disse pro Che. E o meu fim do final de semana, foi cômico, bem pastelão. O que eu mais precisava era ter que descer até minha casa segurando vela. Pois é, meus caros, foi assim que se sucedeu tudo. Nada melancólico por aqui, certo?

Medieval II

Fazem 20 graus por aqui agora, mas o ventinho faz a sensação térmica ser menor. Depois de quase 2 meses sem dar as caras, a chuva apareceu por aqui. E apareceu ontem a noite, quando eu estava saindo para mais uma noite inebriante de bebedeira e lances mal resolvidos, impossíveis, caretas e repetitivos, que culminam sempre em dor no coração e necessidade extrema de cama e edredon. Nem liguei. Pedi essa chuva durante a semana toda, e nem podia reclamar da hora imprópria que ela resolveu aparecer. Tentei um abrigo no orelhão da avenida, mas não foi suficiente. No caminho de casa até o centro, tem poucos abrigos para casos como estes. O jeito foi encarar, de boa, na caminhada mesmo. Aí, a gente tenta fazer a cena ser mais poética, coloca uma música no mp3 que faz tudo ter mais sentido, que faz a gente se sentir cachorro faminto no meio da tempestade, mas um cachorro malandro, que gosta da aventura, nada de lágrimas, nada de sarna. Ah, e o cigarro! Fumar na chuva é o detalhe mais desencanado da cena. Os carros passam, e as pessoas te olham se perguntando porque você fuma debaixo de chuva. Tem umas que não dá, molha demais. Vem um pingo e apaga o fogo, mas a de ontem dava. O Che também pegou chuva na mesma hora, do outro lado da cidade. Mas eu penso que ele não vê nada de poesia nisso. Deve ter pensado: "que merda", "que droga", "se eu tivesse um carro, isso não aconteceria", "ah, que vontade de voltar pra casa". A Lis estava esperando a gente essa hora, protegida da chuva. E pra Lis, cada pingo de chuva deve gerar um pensamento gozado, uma risada contida, e é um alívio pensar que seus sapatos e seu cabelo estavam secos.
A chuva caiu a noite inteira, só parou por volta das 3 da manhã, que foi a hora que Che e eu fomos embora da Lex Luthor. A Lis já tinha ido uma hora e meia antes, mais ou menos. O Maicon ficou por lá. Ele, nessa hora, era o único animado da noite. Ah, a gente acordou cedo, trabalhou na biblioteca. A Lis foi a única que dormiu nesse meio tempo. Che e eu estávamos de pé desde às 7 da manhã. Punk! A balada estava lotada. Tinha um casal de gogodancers no palco causando um frisson. Ah, como eu disse, eu vejo pessoas mais bonitas na internet, e além do mais, nuas. Antes de ir embora, algumas cervejas, um fora e algumas lamentações, não necessariamante nessa mesma ordem, nem vindos da mesma pessoa. É, era hora de ir pra casa. Tem noite que sinto vontade de virar vândalo, de ir chutando lixo, de depredar placa, de berrar e cantar, acordando os vizinhos, apertar campainha e sair correndo, não pra simplesmente danificar o patrimônio público ou perturbar, mas sim pra deixar bem claro pra mim mesmo que uma noite como esta nunca mais deverá se repetir, que já deu a hora de dar murro em ponta de faca, que o personagem mais importante dessa história sou eu, e que estou precisando urgentemente dar uma guinada, e parar de ser coadjuvante em história alheia.
Ah, eu falo, falo, mas não há nada a se fazer quando o único jeito do barco correr, seja esse, a base de muita pancada. A gente vai vivendo, e pagando pelas escolhas que faz na vida.
As duas coisas que une a nós todos são a amizade e o álcool. Tenho muita sorte de ter essas pessoas ao meu lado, e de me embriagar ao lado delas. Não pensem nisso como um caminho destrutivo. Ninguém está pensando em virar alcoólatra, nem de perder o controle. Vivemos noites boas também sem bebida. Eu, particularmente, não bebo pra afogar mágoa, bebo numa eterna busca de libertação. As pessoas ficam mais libertas, mais soltas, menos reprimidas. Os sentidos ficam a flor da pele, se ama mais, se sofre mais. É uma maneira de ter do que se arrepender depois, e também do que se orgulhar. Tomei alguns grandes porres até hoje. Um, em São Paulo, quando ainda namorava. Foi de sagatiba com coca-cola, no meu apartamento. Estava vivendo uma crise no relacionamento e usei aquela noite pra dizer tudo que precisava, de uma vez, sem pausas e sem pudor. No dia seguinte, não consegui levantar da cama de tanta dor de cabeça. Foi quando eu aprendi que vodca faz com que fique fora de mim. Tempos depois, quando eu já estava de volta a Tambaú, tomei outro, de vodca e cerveja, dessa vez. Na época, estava caindo na real, tomando conta daquilo que o coração tentava avisar há meses. Saí do Sossego sem me despedir de ninguém, e o Éder acabou me encontrando. Nossa, naquela noite ele ouviu tanta merda, e aproveitou pra falar também. Essa conversa causa efeito até hoje na nossa amizade. Nunca iremos esquecer tudo que foi dito. O último grande porre foi na Lex Luthor, esse ano. Open bar, só cerveja, e pra variar estava me sentindo péssimo, o último dos homens. Dancei muito naquele dia no camarote, agressivamente, numa maneira de botar pra fora a vontade que estava de fazer confusão. O Che e eu discutimos feio na saída, quase saímos na porrada. Foi tenso e desnecessário. Não gostamos nem de lembrar, e nem falamos mais dessa noite.
No sábado passado, o álcool proporcionou momentos hilários na festa dos anos 70 e 80 que rolou na SAT. A Céia, uma das djs da festa, me deu vip. Estava animado mesmo pra ir e a Céia manda muito bem. Tocou de tudo um pouco. Decoração temática e a pista não estava muito lotada. Dancei muito. De repente, toca Macarena. Começamos a dançar. Estavam eu, o Che, o Neno, a guria que estava ficando com o Neno, e uma amiga dela. Um de frente pro outro, dançando a Macarena. Viramos o centro das atenções. A balada parou pra ver e pra acompanhar a nossa dança. Me senti num episódio dos "Normais", quando Rui e Vani dançavam a Macarena numa festa, de uma maneira esdrúxula. Logo depois, começou a lambada. Lembrei da Lislaine na hora, minha companheira oficial de dança. Já causamos tanto nos bailes juntos, com danças ousadas e sensuais. Bom, na falta da Lis, tirei a amiga do Neno pra dançar. E não é que deu certo? Um gingado, a entrega e a dose certa de sensualidade são necessários para a dança proibida, e foi o que houve. Foram duas músicas, alucinantes e contagiantes, haha. A vida tem que ser assim mesmo, a gente não deve se poupar de nada que tenha vontade. Não tem que ter medo de se relacionar, de conhecer as pessoas, de viver momentos com elas. Tudo é matéria fundamental pra nossa existência. A noite nunca tem fim.
Sexta-feira tinha sido mais light (ou não?). Bar do Deoclides com a Lis e o Che. Nós somos os três mosqueteiros, eles são meus amigos super-heróis A gente se entende, o assunto não acaba, compartilhamos muitas idéias. A Lis vai sempre de coca-cola. Che e eu de cerveja, é claro. Estava frio e logo eu me arrependi de não ter levado casaco. Sorte de que o Che não estava com frio e quebrou meu galho. Fui até perto da casa dele, conversando. Super-heróis sem poderes, sem poder de mudar nada, dois perdidos numa noite suja. Tem noite que a gente parece dois velhos reclamões. Que droga! Pra que passar tanto tempo tentando entender o que não tem explicação? Não tem motivo também pra lamentar tanto, se desculpar tanto e se agoniar tanto, por aquilo que a gente não pode mudar, que só o tempo faz. Eu tento ser um cara evoluído, adepto das novas modernidades, da revolução sentimental e organizacional vigente. Bebo pra entender, pra depois explicar, pra depois reclamar. Mas acaba tudo voltando a velha opinião formada sobre tudo, à Idade Média, àquela ultrapassada forma de sentir. Tudo vai virando lembrança e a gente espera o dia em que vamos poder dizer, mais seguros e maduros: "Lembra quando a gente via o mundo daquela forma? Que bobagem...". Tudo muda um dia.