Todo mundo odeia...

... teatro de fantoches
A semana começou com muita expectativa. Na segunda de manhã, começaram os preparativos para o teatro de fantoches que ocorreu na biblioteca, em comemoração a Semana do Livro. Fatinha e eu fomos buscar o palco no Santuário, com a Catarina, o carro dela. Depois de tirarmos o palco pesado da igreja, ele não coube no carro. Nossa sorte foi que um caminhão da prefeitura estava por lá com os jardineiros, e eles ofereceram ajuda. Passamos a tarde toda ensaiando na cozinha da biblioteca, com a Carolzinha, o Wagner e o Caio, os atores da peça. Depois, Che e eu saímos mais cedo e fomos para a SAT, de John Móvel. A moto do Che estava com problemas em um dos pneus, que furou num dia desses em que ele ia para o trabalho, então ele estava com o carro. Paulo não pôde aparecer e ensaiamos sozinhos, sem cenário nem nada, só batendo o texto. Terça-feira foi dia de montar o outro cenário, na biblioteca. Fatinha e eu passamos o dia todo fazendo isso, esticando cortina, desmontando estante, encapando a casinha, instalando o som. Che também ajudou. Estava tudo pronto e chegava a hora do ensaio. Eu sei que saímos de lá umas seis e pouco da tarde, mas deixamos tudo pronto. A noite teve ensaio de "Somos todos do jardim de infância". Paramos de ensaiar a outra peça temporariamente, já que estrearemos o musical dos anos 60 antes, no final desse mês. A quarta-feira chegou e meia hora antes do previsto, a biblioteca já estava cheia de crianças para assistirem o teatro de fantoches. Cerca de 100 alunos das escolas de ensino fundamental compareceram na biblioteca no período da manhã acompanhados dos professores. A tarde, mais 150. Estava um calor terrível. Mas deu tudo certo. Todos saíram satisfeitos com o trabalho e mais uma vez a biblioteca apresentou um ótimo projeto. A história da peça foi adaptada por mim e pela Fatinha. O sapo Risonho se apaixona pela macaquinha Lindinha, e com a ajuda do amigo-jacaré Bacana, tenta conquistar sua amada com a brincadeira do bem-me-quer, mal-me-quer. A peça divertiu as crianças, que cantaram, dançaram, riram e treinaram matemática com os personagens.
Che chegou meia hora atrasado esse dia na biblioteca. John Móvel deu problema, quebrou o freio de mão quando ele saía do posto, depois de ter sido abastecido. Che desceu de bicicleta até a biblioteca numa carona oportuna do Alan.
Lis não apareceu na biblioteca esse dia. Ela mandou uma mensagem no meu celular. Sua avó havia falecido naquela madrugada. Ligamos pra ela ao sabermos do ocorrido.
A noite, mais uma vez, tivemos ensaio do musical dos anos 60. A peça está pronta.
Faltam alguns ajustes nas coreografias e na interpretação dos atores, mas confiamos e trabalharemos muito para que ela estréie da melhor maneira possível.
Quinta-feira de manhã, mais uma apresentação do teatro de fantoches, a última. Um pouco antes do almoço, Paulo apareceu na biblioteca com o jipe. Ele, Che e eu fomos levar o palco de volta ao Santuário. A essa hora, a ansiedade para a viagem no dia seguinte já começava a aparecer. A tarde parecia que ia ser tranquila na biblioteca, só não foi por causa de um dos computadores que explodiu, de repente, assustando a todos. A noite, Che, Lis e eu nos reunimos em casa para assistirmos o dvd do "Sexo dos Anjos", o que prometíamos fazer há tempos. Conversamos sobre a peça, sobre nossos personagens, nossa interpretação, empolgados com a viagem do dia seguinte.

... festivais de teatro
Acordei seis da manhã. Minha mala já estava pronta. Faltava só juntar o que ia levar na mochila. Óculos de sol, celular no bolso, fone de ouvido pendurado no pescoço, café tomado, all star no pé, e simbora pra casa do Paulo, nosso ponto de partida. A kombi chegou um pouco atrasada. Na hora de carregar o cenário, uma pergunta: sera que vai caber? Empurra daqui, empurra dali, aperta e volta e vira... Coube. Alguém teria que ir embaixo da escada, outro deitado, mas coube. Na frente, foram Lis, Carolzinha e o motorista. No banco de trás, Che e eu. No último banco, o Paulo. Pegamos a estrada na maior expectativa e todos pareciam estar com bom humor matinal. Depois de um tempo de viagem, meu celular começou a fazer a trilha sonora, ja que a kombi, cedida pela prefeitura, não tinha aparelhagem de som. Uma parada no posto para fazer xixi, tomar uma água. E pegamos a estrada de novo. Todos dormiram em determinados momentos da viagem. O tempo estava bom, com sol. Passando em Paraguaçu, percebi que o meu celular já marcava o ddd 35, de Minas Gerais, hehe. Logo depois, reconheci um hotel-pesqueiro que vimos da pista, um lugar onde meus pais e eu nos hospedamos em 2001, em férias.
Chegamos em Varginha por volta de meio dia. Da entrada se via alguns prédios, o que indicava que a cidade não era tão pequena assim, como a maioria das que vimos pelo caminho. O trânsito indicava isso também, era uma loucura. Che chegou a comentar algumas vezes que, se víssemos vacas andando pelas ruas, poderiamos confundir com o trânsito da Índia. Varginha possui o tal mito do ET, que o povo de lá jura que é verdade. O turismo na cidade se fez através dessa história, e desde então, Varginha se desenvolveu muito. No lugar da antiga prefeitura, construíram uma nave, um disco voador luminoso. Na praça, que virou Praça do ET, tem um ET gigante. Nas lojinhas de souvenirs, vende-se ETzinhos de resina, chaveirinhos de ETs, ETs com camisa de time de futebol, uma loucura inacreditável. Até num restaurante, existe um mascote na porta, que não poderia ser diferente, é um ET.
Encontramos o Colégio Marista Mestrinho, onde fica o teatro que aconteceu o festival. A primeira peça havia acabado de terminar. Vimos alguns atores saindo. Conhecemos
então o teatro, onde iriamos nos apresentar um dia depois. Um palco grande, com cortina vermelha, muitas engrenagens, aparatos de iluminação, cadeiras acolchoadas, ar condicionado, coxias grandes nas laterais... Um espaço perfeito que propiciou em mim um terrivel frio na barriga. Deixamos o cenário da peça em um dos camarins e fomos para o restaurante almoçar. O clima era ótimo, de descontração misturada com um nervosismo bem humorado. O almoço foi ótimo, com carne de churrasco e tudo.
Fomos então para o hotel, que era praticamente na mesma rua, mas bem longe dali. Num quarto, ficaram Lis e Carol. No outro, Che, Paulo e eu. Queríamos todos descansar da viagem. Nos deitamos e depois de uma passagem pelos 2000 canais da tv a cabo, conseguimos dormir um pouco. O motorista foi embora com a kombi e voltaria pra nos buscar no domingo de manhã, depois do festival. Então, quando acordamos, enfrentamos a primeira maratona até o teatro a pé, onde a segunda peça do festival ia começar.
A peça foi "A noiva do defunto", uma comédia circense do grupo de teatro Mensageiros da Arte, de Campinas. O espetáculo tinha música ao vivo e um elenco engraçadíssimo às voltas com uma história de mortos-vivos que queriam se casar. O cenário e os figurinos eram bem coloridos, e as piadas bem infantis, como devem ser os espetáculos de circo mesmo. Foi muito gostoso ver. Depois de tomarmos um café e eu repor meu estoque de cigarros, pelo fato da próxima peça ser só às 19 hs, voltamos para o hotel.
Duas peças, das 10 selecionadas para o festival, não foram apresentadas, porque os grupos tiveram problemas com transporte. A peça das 19 hs, só Paulo e Lis assistiram. Nós dormimos e perdemos a hora, então, Che, Carolzinha e eu tomamos banho e subimos depois para o teatro.
Era a hora do espetáculo "Navalha na Carne", famosa obra de Plínio Marcos, encenada pelo Grupo de Ninguém, de Campo Limpo Paulista. No cenário, um televisor, uma cadeira e algumas roupas espalhadas pelo chão. O figurino era simplório, sem muita cor. Mas a ação cênica foi delirante, maravilhosa. Muita porrada, muito tapa, muito palavrão, num drama urbano que nos escorregava na cadeira, assim como tem que ser as peças de Plínio Marcos. A atriz que fez Neusa Sueli, a prostituta, foi a que mais me agradou. Os momentos de humilhação que ela passa nas mãos do amante Vado tiveram uma perfeita combinação de emoção e revolta. A iluminação doía um pouco nos olhos. Era uma lâmpada que vinha do teto, bem fraca, que iluminava as cenas. No final, o público saiu num silêncio profundo, mortal até, e no rosto dos jurados, que a essa hora nós já tínhamos visto por lá, havia um sorriso de satisfação.
Recuperados do agressivo espetáculo, fomos comer uma pizza, num barzinho perto do teatro. Eu não estava muito bem, não estava animado, por alguns motivos que vocês saberão daqui a pouco. No telão, vimos Dilma e Serra no debate da Globo. Foi quando eu me lembrei de que domingo era dia de eleição. Você vai para outra cidade e esquece das coisas. Às vezes, dá a impressão que você está num mundo paralelo. Bom, fomos de meia calabresa, meia mussarela. A expectativa para o espetáculo da manhã seguinte era notável. A conversa não poderia ser outra senão teatro.
Comemos e voltamos para o hotel. Era quase meia-noite. As luzes se apagaram no nosso quarto. Paulo dormiu logo, Che também, ele que tem um sono pesado que eu nunca vi igual. Eu rolei, rolei na cama e nada. Não conseguia atingir nenhum estágio do sono, nem sequer o primário. De repente, vi Che levantar da cama e, depois de ir ao banheiro, sair apressadamente pela porta do quarto, fazendo um barulhão. Pensei na possibilidade dele estar passando mal e fui atrás. Não tinha ninguém nos corredores. Desci e fui encontrá-lo no andar de baixo, assustando-o. Ele tinha ido beber água, só isso. Disse então que não conseguia dormir. Nos sentamos numa salinha no meio do corredor, onde tinham uns sofás. Acendi um cigarro. Ficamos ali uns 15 minutos conversando por cochichos, e voltamos para o quarto. Paulo continuava dormindo como pedra. Eu passei a noite toda rolando na cama. A nossa peça não saía da minha cabeça. As falas se repetiam insistentemente. Penso que talvez tenha conseguido dormir umas 4 da manhã.
Às 7 e meia estávamos de pé. Tomamos café da manhã no hotel, arrumamos as coisas e fomos para o teatro. Chegando lá, o técnico de iluminação estava à espera. Paulo deu as coordenadas para ele, aumentou alguns focos, alguns efeitos. Enquanto isso, Che e eu passávamos o texto no palco. Estávamos muito felizes, uma tensão disfarçada de felicidade. Eram quase 11 hs quando fomos para o camarim e nos trocamos. Carolzinha fez nossa maquiagem com a ajuda de Lis. O mp3 do meu celular estava ligado e a música servia pra relaxarmos, o que podíamos relaxar.
Faltava pouco. Subimos até o palco e repassamos os focos. E descemos para fazer o aquecimento vocal e corporal. Sempre faço isso e logo depois uma oração particular, em silêncio, de mãos dadas com o Che. Mal terminamos nossa concentração e o segundo sinal tocou. Corremos até o palco que já estava no breu profundo. Demorei um pouco pra achar minha escada. Quando achei e me sentei, a peça começou.
Che e eu estávamos nervosos e eu conseguia perceber isso nele nitidamente. Esquecemos algumas palavras do texto, mas sem deixar que o público percebesse. Seguimos em frente. Em determinado momento, percebi um silêncio exagerado na plateia, que não reagia às ações dos personagens. Comecei a me preocupar e a perceber que a peça estava lenta, até um pouco arrastada. Bom, no final, os aplausos vieram. No camarim, disse para Che que a apresentação parecia que não tinha sido boa.
Era hora do debate com os jurados. Nos reunimos no fundo da plateia. Dois dos três jurados estavam presentes. Um deles parecia que tinha caido de
pára-quedas naquela hora, ali, no fundo do teatro, ou então que tivesse visto a porta aberta e entrado, assim, sem mais nem menos. Disse de maneira enrolada que não gostou disso, daquilo, e pronto! O outro merecia créditos. Ele quis saber a história do nosso grupo, quis saber de onde veio a ideia do projeto, perguntou se tínhamos DRT. Foi então que disse que Che e eu temos talento, que ele vê potencial em nós, que vê que somos bons atores, mas que a peça não o agradou. Ele achou monótona, a iluminação bucólica, e o jogo desinteressante, faltava ação dramática numa peça totalmente verborrágica. Disse também que faltava ousadia no nosso trabalho.
Existem muitas maneiras de se montar uma peça, principalmente uma peça com texto lúdico e com tantas quebras de contexto, como o do Flávio de Souza, que escreveu "Sexo dos Anjos". A maneira que o nosso grupo enxerga a peça é essa, numa montagem onde sugerimos para o público a monotonia daquela sala de espera no purgatório, fazendo um jogo que expande e volta para o lugar, para expandir no final e fazer a grande revelação. A maneira que os jurados fariam a peça é diferente da nossa, inevitavelmente. O nervosismo realmente atrapalhou e aquela apresentação perdeu sim um pouco o ritmo, mas nada que comprometesse o belíssimo figurino das marionetes e a iluminação bem distribuída.
Bom, saímos de lá sabendo que não tínhamos agradado, mas ainda felizes, afinal, é assim mesmo. Nosso interesse de ir até Varginha apresentar a peça era exatamente mostrar nosso trabalho, conhecer outros grupos, ver esses trabalhos, e lógico, se possível, trazer algum prêmio para o grupo, mas, naquela hora, todos sabiam que isso estava bem longe de acontecer.
Almoçamos e fomos para o hotel. Descansamos bastante daquela manhã que poderia ter sido mais fácil. À tarde, a chuva chegou na cidade. Carolzinha dormia no quarto das meninas e deu a deixa perfeita para Che sugerir a brincadeira da pasta dental. Sim, e a vítima foi a Carolzinha. Eu que executei o serviço, coitadinha! Lis disse depois que, quando Carolzinha percebeu a pasta no seu rosto, disse 100 palavrões em 20 segundos.
Por causa da chuva, não pudemos sair do hotel, afinal estávamos sem carro. Então, tomamos um banho e pegamos um táxi mais tarde até o teatro, onde assistimos a penúltima peça do festival, "Cor de chá", do grupo teatral Emílio Silveira, um monólogo escrito e encenado pela atriz Noemi Marinho, da cidade de Alfenas. Não chegamos a nenhuma conclusão, mas pra mim, até hoje, a peça possuía um texto auto-biográfico. Aqueles dramas da personagem, a solidão, eram dramas e conflitos da própria atriz, por isso, a emoção das cenas foi só dela, e não veio até a platéia. Dias depois, iríamos descobrir que Noemi Marinho tem um currículo invejável. Ela se formou na EAD, já foi roteirista do "Sai de Baixo" e da novela "Seus Olhos"do SBT, já ganhou prêmios importantes como o Shell, o APCA e o Apetesp. e tem até um livro na Coleção Aplauso com sua obra, com três peças que escreveu. O gozado é que mesmo assim, seu espetáculo "Cor de chá" não levou nenhum prêmio dessa vez, no Festival de Varginha.
Fomos comer um lanche no intervalo das peças e voltamos para o teatro, onde o início da última peça estava atrasado. Quase uma hora depois do horário previsto, a peça começou. "Gaiola - o caçador de solidão", da Companhia Távola de Teatro, era o espetáculo, um monólogo da cidade de Lauro de Freitas, na Bahia. O texto era meio cansativo, repetitivo, mas o cenário e a iluminação eram belíssimos, de encher os olhos. Folhas secas pelo chão, uma armação de espelho, em meio a correntes, caixas e mais caixas, uma em cima da outra... As marcações de cena davam o tom exato da emoção do personagem. Bonito de se ver!
Não demorou muito pra chegar a hora da premiação. A maioria dos grupos se reuniu na plateia, ansiosos. Nós estávamos lá também. Logo de cara, Paulo ganhou um Troféu de "Experiência Profissional". Mas dos prêmios conferidos aos grupos pelos espetáculos apresentados, não levamos nenhum. Esperava que a nossa peça ganhasse pelo menos um segundo ou terceiro lugar por figurino ou iluminação, mas nada. Ninguém gosta de perder, isso é fato. Che e eu queríamos que uma nave do ET de Varginha viesse e nos abduzisse dali naquela hora hehe. À medida que os prêmios eram anunciados, escorregávamos mais um pouco na cadeira. Penso que diminuí alguns centrímetros de altura nessa noite. Foi tenso, mas depois rimos de toda a situação. Todo mundo tentava fingir que estava tudo bem, numa forma de não acabarmos tão abruptamente com o nosso bom humor, e tentando mesmo acreditar que o importante é competir, já que estávamos entre os 10 espetáculos das 180 inscrições que o festival recebeu. O fato é que pra mim, tudo ficou mais fácil por ter passado por essa experiência ao lado do Che, meu grande amigo, que estava no mesmo barco que eu. Talvez se ele não estivesse ali comigo, tudo seria bem mais difícil.
No dia seguinte, arrumamos nossas coisas, esperamos o motorista chegar, carregamos a kombi com o cenário e pegamos a estrada de volta a Tambaú. Dessa vez, o silêncio foi maior durante a viagem. Che e eu fomos sentados um em cada ponta do banco, sem falar muito, mas os dois pensando exatamente a mesma coisa, em tudo que havia acontecido diferente do que a gente planejava dessa viagem, e da premiação. Acho que todo mundo pensava nisso.
Ah, esqueci de contar. No sábado a noite, antes de irmos embora do teatro, eu fumava do lado de fora. Che estava comigo. Um dos jurados passou, indo embora. Ele parou, apertou nossas mãos, e nos disse: "Juízo hein, e vê se emagrece..."

...feriados prolongados
Segunda-feira, o Brasil amanheceu diferente. Já tínhamos o novo presidente da República, ou melhor, a primeira presidenta do país. A noite anterior tinha sido animada. Quanto eu estava esperando pelo momento de sentar numa mesa no Mancha, ouvindo rock e tomando um vinho, vendo a vida passar sem graça. Tem dia que é bom não acontecer nada. Acordei cedo. Não iria trabalhar, a biblioteca estava fechada e isso era uma das coisas que me animavam. A outra era que, a qualquer momento, meu notebook ia chegar e eu ia poder novamente usar a internet, atualizar meu blog, ouvir minhas músicas... Almocei com meus pais, na mesa, coisa que há tempos não acontecia. Sempre almoço no trabalho e eles em casa, então nem nos vemos na hora do almoço. Logo depois, toca a campainha. Era o cara da loja de informática, com meu notebook na mão dizendo que não tinha boas notícias. Sim, meu note não estava funcionando, depois de um mês fora. Fiquei louco da vida, putíssimo, irado. Quando um ariano fica assim, sai de perto porque sobra pra todo mundo. Estava cheio de coisas pra fazer e iria continuar sem internet. Viver de lan house e de casa de parente não dava mais. Então, saí decidido a dar um jeito nisso e acabei comprando um note novo.
Encontrei o Che na praça a tarde. Eu estava resolvendo meu problema com o computador, e ele o problema do carro. O John Móvel teve a embreagem trocada e já podia rodar de novo. Tínhamos pensado em ir na cachaçaria, mas caiu nossos beiços quando a gente descobriu que homem pagava 40 reais pra entrar naquela noite open-bar. Desencanamos logo da idéia e a saidinha foi como sempre... Segunda-feira, o Mancha estava fechado. No posto, quase ninguém. A frente da cachaçaria estava lotada. Fomos então para a praça, depois de uma passada rápida no Geraldo pra tomar uma cerveja.
Estávamos Che, Marília, amiga dele e do Elton, o Elton, Maikinho e Cesinha, e mais duas ou três turminhas de amigos sentados na praça. É a hora que aparece sempre um bêbado pra encher o saco. Nessa noite, apareceram dois, e eu resolvi partir.
Na tarde do dia seguinte, teve ensaio da peça na SAT, uma droga de ensaio. Foi péssimo, muito ruim. Às vezes, dá pra desacreditar que a peça saia até dia 25 de novembro, data da estreia. Mas não podíamos esperar muito de um ensaio a tarde no feriado de Finados...
Saí de lá com a Lis e encontramos o Che na praça. Isso eram umas 6 e meia da tarde. Ficamos no posto até 8 da noite, conversando sobre esses últimos dias difíceis... E fomos embora porque no dia seguinte, a vida ia tentar voltar ao normal.
Na manhã desse feriado, tinha falado com o Che no msn. O fim da noite anterior não tinha sido boa pra ele, nem pro John Móvel, que chegou em casa com o pára-choque amassado, bem no meio, e mais uma vez vai precisar de um conserto. Um animal não identificado deve ter entrado na frente do carro e esse foi o ruído que Che e Cesinha escutaram quando passavam na avenida a noite, a caminho de casa. Até hoje Che não sabe explicar o que aconteceu, já que olhou pra trás na hora da tal batida, e não viu nada.

...telefonemas
Lis ligou e não atenderam. Che ligou, foi atendido e ouviu o que não queria. Eu liguei, fui atendido e disse o que não devia. Ou sei lá também se não devia. Ainda em Varginha, na tarde de sábado depois da fatídica apresentação da peça no festival, fiz uma cobrança, uma pergunta nada delicada sobre o que tinha ocorrido na noite seguinte, na balada que eu não tinha como estar presente. Acabei me estressando e meu caso amoroso dos últimos dias, que apresentava sinais de futuro e bons frutos, desmoronou. Voltamos a nos falar depois, ainda estamos nos falando. Eu pedi desculpas, expliquei a situação. Na verdade, houve uma incompatibilidade sobre o que estava rolando. Eu achei que era uma coisa, que já era quase sério, só faltava oficializar e que a fidelidade estava implícita nisso. Mas não estava. Não havia nenhum compromisso, e se houvesse, ele era bem liberal. Eu só sei que desde então, a relação esfriou um pouco. Não é mais a mesma coisa. Passou aquela empolgação, aquele frio na barriga gostoso, aquela ansiedade pra falar, pra nos vermos. A viagem pra Limeira no próximo final de semana, eu cancelei. Não tem mais clima, pelo menos pra mim. O outro encontro parece que continua de pé. Ah, a gente vai vendo o que rola, o que acontece. Nesse feriado prolongado, outra pessoa reapareceu depois de meses, aquela que eu fiquei em julho, que era paixão antiga! Mas sei lá. Depois de tudo que aconteceu esses dias, não fiquei com vontade de ver ninguém, de ficar com ninguém, de paparicar e cortejar ninguém. A solidão e a quietude foram muito bem-vindas, e voltar todo dia pra casa sozinho, e só deitar a cabeça no travesseiro e poder dormir pra ver se nascia um dia melhor, bastava pra mim.

Fragmentos

I- A Ligação
Sábado à tarde, estava um calor insuportável e a cidade bem movimentada. Saí da casa dos meus tios onde fui usar a internet e segui rumo a praça, onde ia encontrar o Che para decidirmos o que iriamos fazer à noite. Na rua Santo Antônio, uma das principais da cidade, na altura da igreja Cristo Redentor, meu celular tocou. "_Oi ! Oi, tudo bem? Tudo e você? Tudo certo! Olha... tô te ligando para dizer que a gente vai, viu? Vocês vão onde? Pra Tambaú! O quê???... Vocês vão vir no flashback? Sim, nós vamos! Vocês vêm de ônibus? Não, de carro! Que horas? Ah... a noite, quando sairmos daqui eu te ligo, ok? Ok! Tchau! Tchau!"...
Essa foi a ligação que transformou meu final-de-semana. Fiquei chocado! Mal acreditava que isso estava acontecendo. Eu disse pro Che que eu estou acostumado a lances que não dão certo, que não vingam. O normal seria eu ir atrás, levar um bolo, ou então, a história acabar ali mesmo, em Santa Rosa na sexta, onde tudo começou.

II- O segundo encontro
Estava na praça com os meninos. Lis mal apareceu nesse final-de-semana. Tocou meu celular. Quem eu esperava tinha acabado de chegar. Antes de receber a ligação, estava aflito, pensando que não vinha, com medo de que aparecesse de surpresa. Avisei o Che, que me desejou boa sorte, e desci. Estava na frente da igreja Santo Antonio. Os cumprimentos foram discretos e minha felicidade era visivel. Sentamos num banco para conversar. O segundo encontro é sempre mais angustiante que o primeiro. No primeiro, você não tem tanto compromisso de falar muito, fazer perguntas, nada disso. O lance é beijar mesmo. Já no segundo é diferente, as vezes até o beijo sair, quando a timidez passa e você estabelece quem vai tomar a iniciativa, leva um tempo. Então, o que você faz? Conversa! E o que dizer? Esse é o problema. Esse papo de ser natural, ser você mesmo, é indicado mas cai por terra quando você pensa em agradar a pessoa, quando você quer que tudo seja perfeito. É a hora que as grandes gafes acontecem. Mas eu não cometi nenhuma, não, só o nervisismo que estava ali, forte, tentando me tirar do eixo. Passada a fase da timidez, no inicio, mesmo que o beijo ainda não tivesse saído, relaxei! Andamos pela cidade. Eu mostrei a praça, o posto,... o nervosismo foi passando e ficamos mais à vontade. De repente, numa rua qualquer da cidade, sem muito movimento, a lua foi testemunha do beijo. Foi um beijo dolorido, forte, daqueles que você não esperava e finalmente acontecia. Nessas horas, você se sente protegido, acalentado, passa por instantes de grande paz. Nos abraçamos. Poderiamos ficar ali a noite inteira, mas saímos logo e voltamos para a praça. Descemos todos para a Lex Luthor. Cesinha e Che foram também. Lá enconteri alguns outros amigos e alguns alunos do grupo de teatro. Fiquei pouco tempo lá dentro. Passei a noite toda namorando, conversando do lado de fora. Foi quando percebi que a nossa relação estava ficando séria, não era somente mais uma ficada. Conversamos sobre nossos antigos relacionamentos, no quanto nos machucamos e o quanto que agora precisamos ser felizes. A noite acabou. Houve despedidas no estacionamento e ficou a promessa de nos vermos em breve, num final de semana desses. Eu voltei a ficar sozinho!

III- A excursão
Minha familia toda viajou numa excursão para Atibaia no domingo. Minha mãe comprou 3 passagens, pra mim, pra ela e para o meu pai que na última hora acabou desistindo. Então, para não deixar minha mãe viajar sozinha, sem ninguém de casa, eu fui. Estava acordado desde as 9 da manhã de sábado, de virada. Pegamos o ônibus às 6 da manhã. Tentei dormir no ônibus na viagem de ida, mas foi quase impossivel. Imagine um ônibus cheio de mulheres da igreja falando, todas sem parar e gargalhando! Sim, elas gargalhavam muito! Minhas primas Aline e Thalita viajaram tambem, mas as duas estavam ora irritadas, ora deprimidas. Então, não tivemos muito papo. Chegamos lá umas 10 da manhã. Em Atibaia fica o Santuário da Mãe Rainha, que recebe romarias todo domingo. É um local de meditação eexiste um convento lá tambem, e são as freiras que cuidam de tudo. Tem lanchonete, uma lojinha, a capela da Mãe Rainha, que é um local extremamente de oração, e um santuário onde ocorre a Santa Missa. Almocei com minha família, tirei umas fotos, fiz minhas orações também, mas minha cabeça estava bem longe dali.

IV- Um desejo atendido
No ônibus de volta para Tambaú, depois de um dia cansativo, sentado ao lado da Aline, minha prima que já sabia de toda a história, disse que seria maravilhoso chegar em casa e receber a notícia de que um certo ônibus, longe dali, não tinha partido. A estrada ia passando pela janela e eu pensava que poderia cruzar até com esse outro ônibus vindo do outro lado, como numa peça do destino. Ouvia musica enquanto lembrava de nós dois e dormi. Um tempo depois meu celular tocou. Era a notícia que eu esperava. O ônibus partiu, mas não levou minha esperança. Teríamos mais uma chance de nos vermos. Cheguei em Tambaú, liguei para o Che e combinamos tudo. Eram quase 10 da noite, quando fomos, Che, Cesinha, Maikinho, Leandro e eu para Santa Rosa, à bordo do John Móvel, que foi devidamente abastecido quando chegamos. Na praça, alguém me esperava. Nos perdemos dos outros e descemos algumas quadras numa rua deserta, aproveitamos aqueles ultimos momentos. A certeza da despedida que viria depois nos deprimia um pouco. Fizemos algumas juras, de nos falarmos, de não esquecermos, de nos encontrarmos de novo. Era meia-noite de segunda- feira e a separação aconteceu. Seguimos nosso caminho de volta a vida real.

V- Muito trabalho
Segunda-feira, a vida de todos volta ao normal. A noite, ensaiamos "Sexo dos Anjos" na SAT. Flata uma semana para a nossa apresentação no Festival de Varginha. Na segunda, foi dificil evitar algumas piadinhas, na cena em que meu personagem conta o que esperava da sua chegada ao céu. Surgiu uma versão nova e "sexy" da cena, mas eu fui quem mais se divertiu. Terça-feira foi dia de "Casa de Brinquedos". Quarta e quinta-feira ensaiamos o musical dos anos 60. A peça avançou um pouco essa semana, mas o trabalho ainda será arduo. Finalmente chegamos nas cenas do Baile de Formatura. E consertamos alguns erros de planejamento de cenário, que tinham ficado para trás. Quarta-feira, foi um dia atípico na biblioteca. De manhã, Lis estava na escola, Fatinha foi fazer um tratamento no dentista, Che e Josi foram em um treinamento do programa de informatização da biblioteca e eu fiquei sozinho. No inicio, a idéia me irritou muito, mas depois relaxei. O movimento foi pequeno e eu aproveitei para adiantar algumas marcações nas cenas da peça. A tarde, Lis apareceu e trabalhamso juntos. Na quinta a tarde estavam só a Josi e eu. Lis está naquela fase crítica da escola. Ela está no terceiro ano do colegial e irá prestar vestibular esse ano. Além de estudar e participar de feiras de profissões, ela tem que entragar os trabalhos finais na escola. Tudo está muito corrido para ela. Che está se preparando para uma cirurgia que terá que fazer em breve. Está fazendo exames fora de Tambaú. Fatinha entrou num curso de teatro de fantoches, que começou essa semana. Na sexta, foi dia de ensaio do teatro de fantoches que estamos preparando para a próxima quarta- feira, Carolzinha, Wagner e Caio estão no elenco. Na próxima semana, se comemora a Semana do Livro.

VI- Alguma certeza
Depoimentos, torpedos, ligações,... Há uma semana não desgrudo do meu celular. Há uma semana, não paro de sentir saudades. Andei uns dias inseguro, mas agora estou mais firme. estamos combinando de nos vermos dia 6. O último final-de- semana modificou drasticamente a minha vida. Tenho algo agora em que acreditar, algo para esperar. Nos falamos como se nos conhecessemos há muito tempo. Já sabemos muitas coisas um do outro e a distancia tem doído bastante. Estamos virando cumplices, parceiros. E algo nasceu entre nós. O acaso está virando certeza. Que a sorte e o destino estejam conosco, do nosso lado!

"Olha pro céu e vê a lua que eu preparei pra você, pra comemorar uma semana da nossa historia. Queria estar com você e estou, aqui dentro. Um grande beijo!"

Lua Nova - Parte I

Che estava planejando arrumar seu carro e, há tempos, falava muito nisso. Seu pai tem um escort que estava parado na garagem há alguns meses. Eu vi o carro pela primeira vez no início desse ano, quando Che trabalhava num outro emprego fora da cidade e usava o carro para chegar até lá. Depois, o carro apresentou alguns problemas, e Che mudou de emprego. Para colocá-lo pra rodar novamente, primeiro ele agilizou toda documentação, depois foi arrumando algumas peças, trocando outras. Calota, faróis, para-choque, vidro, tudo em dia.
Sábado, depois de acordar bem tarde, almocei e me preparei para sair. Ia ligar para o Che, mas nem precisou, ele ligou antes. Combinamos de subirmos juntos. Tínhamos coisas a resolver no centro da cidade. Che apareceu de carro em casa. Fomos rodar pela cidade a procura de um lava-rápido. Rodamos, rodamos. Nenhum tira horário disponível. Che queria uma lavagem completa no carro. O jeito foi deixar o carro no lava-rápido de um posto de gasolina, numa das avenidas. Eram 2 da tarde e o carro só ficaria pronto às 6. Fomos para o centro da cidade a pé. A rua principal estava bloqueada, por causa do evento do dia das crianças que uma loja da cidade promovia. Tinha pula-pula, algodão doce, pipoca e trenzinho. Fizemos uma parada por lá. Encontramos a mãe e a irmã do Che. Comecei a perceber que conhecia o Homem-Aranha de algum lugar. Cheguei mais perto e batata! Era o Neto, aluno do grupo do teatro. Segunda parada foi na Harmony, a lojinha de rock que antes era evangélica e tinha outro dono. Finalmente consegui comprar uma camiseta dos Beatles. Agora tenho uma deles, uma dos Stones, e outra do The Doors. Che comprou uma do Ramones, branca. Saímos de lá e cada um foi para um canto. Che precisava cortar o cabelo e eu precisava ir até a lan house, já que continuo sem computador em casa. Combinamos de nos encontrar depois de 1 hora. Che acabou primeiro o que tinha que fazer, por isso ficou na lan house jogando playstation, enquanto meu tempo na internet não acabava.
Quinta parada foi numa lanchonete, onde vendem salgados e pastéis deliciosos. Comemos, demos um tempo na praça e fomos de volta ao posto de gasolina. Foi uma tarde divertida! Che estava feliz pra caramba, afinal esperou pelo conserto do carro durante alguns meses e finalmente conseguiu. Enquanto esperávamos o carro ficar pronto, Che quis dar um nome pra ele. Surgiram várias sugestões, as mais absurdas. No fim, Che decidiu por "John", e eu completei: "Móvel". Ficou então John Móvel. Naquele dia, seria o aniversário de 70 anos do John Lennon, se ele estivesse vivo, daí o nome do carro. Saímos do posto 6 e meia da tarde com o John Móvel lavadinho, pronto para a saída da noite de sábado.
Foi um final de semana de noites frias, de vento cortante, e de pouca gente na rua. No sábado a noite, tivemos uma grande razão para nos alegrarmos. Cesinha, depois de 2 meses de recuperação em casa por causa do acidente que sofreu, estava de volta. Esperamos muito por isso. Ele não pode beber e ainda está com uma proteção em um dos braços, mas o tempo de enclausuramento acabou. Lis, Maikinho e Éder apareceram também. Um novo stress com o Éder aconteceu, por causa de seus comentários desnecessários. Foi a última noite que ele saiu conosco, até então. Lis saiu logo. Ainda anda "ocupada" nas noites do final de semana. Fico feliz por ela e torço para que dê tudo certo. Estávamos no Bar do Mancha. Os meninos iam na Lex Luthor, no show do Spyzer. Eu não tinha nem comprado a entrada. Tinha decidido que não ia mesmo, que ia dar um tempo. Durante uma conversa nessa mesma semana, descobri o quanto que meus problemas e encanações tem interferido na vida de outras pessoas. Nunca permiti que bloqueassem minhas vontades, o que tenho pra dizer, pra fazer, meus impulsos, minhas chances de fazer boas ações, e as chances de meter minha cara na parede, me espatifar e ficar em pedaços. Então, não devo bloquear ninguém com a minha presença, nem com meus sentimentos, que são equivocados e involuntários, mas nobres. Bom, por volta de meia noite, me despedi de todos e fui pra casa. Che tinha me perguntado umas 5 vezes durante o dia se eu ia na Lex Luthor. Eu estava sim, com muita vontade de ir, mas havia prometido que não ia, e promessa é dívida. A volta pra casa foi estranha, dolorosa até, com uma pergunta no ar, tipo "por que tem que ser assim?". É difícil cortar certos vínculos, mudar os costumes, alterar a rotina. Já fui muitas vezes na Lex Luthor, e sempre estive com eles lá, meus amigos. Cheguei em casa e fui pra cama. Pensar no que havia acontecido não estava sendo bom. Então, dormi. No dia seguinte, soube pelos meninos que a noite foi igual a todas as outras, sem tirar nem pôr. Sobre isso, até hoje não sei o que pensar.
Segunda-feira chegou, depois de um domingo tranquilo de almoço em família e noite de vinho no Mancha. Era véspera de feriado e a cidade estava meio vazia. A biblioteca abriu e fomos todos trabalhar. A tarde, saímos mais cedo, Che e eu. Fomos para a SAT ensaiar "Sexo dos Anjos". Falta pouco para a apresentação no festival. O ensaio foi ótimo. Redescobri o quanto que gosto dessa peça. É delicioso estar em cena com essa história.
Na semana passada, recebi pelo correio um informe do Célia Helena, a escola de teatro onde me formei como ator. Eles estão promovendo uma pós-graduação para direção teatral. Me animei um pouco, e até passou pela minha cabeça de fazer o curso, que acontece só no final de semana. Me animei mais pela possibilidade de voltar a São Paulo, àquela escola onde tenho tanta história vivida. Mas soube pelo Paulo o valor do curso e a duração, que é de 15 meses. Não está dentro das minhas possibilidades, e não posso negar que isso me deprimiu um pouco, pensar na ideia de ficar aqui pra sempre, vendo a vida passar por mim.
Aqui em Tambaú, às vezes dá a impressão de que um dia demora 3 pra passar, enquanto o resto da Terra gira mais veloz. Uma prova disso foi a noite de segunda-feira. Che saiu de John Móvel. Estávamos nós, Maikinho, Cesinha e a Lis, que apareceu uma pouco depois. Passamos na quermesse. Estava abarrotada de gente, não tinha lugar pra sentar e mal se podia transitar. Então, depois de rodarmos bastante, paramos no sossego do "Sossego". Lá é estranho. Você olha para um lado e não vê ninguém. Olha para o outro e nada. Olha pra frente e vê um muro que mal aparece por causa das árvores. Nessas noites geladas, de lua nova e de vento cortante, dá uma solidão. Tem dia que é foda. A vida vira uma reprise de episódio passado. Eu conheço a sinopse dessa história. Sei muito bem quem é quem. Já vi o começo e o final é previsível. E nenhum suspense que se possa inventar convence o público. Este enredo, de amor desencontrado, de amigos que buscam uma vida intensa e uma certa eternidade de tudo isso, é batido. Todo mundo já viu e sabe que não tem como terminar bem. Os amigos se desencontram e o amor dos protagonistas se perde. Mas vamos lá, até o fade out do último episódio, tem gente querendo saber o que vai acontecer, se alguma coisa pode mudar. Nesta noite, vozes, que não eram em off, me relembraram nossos papéis, e mostraram que a história não saiu muito do lugar. E terminou tudo como no primeiro episódio.

Lua Nova - Parte II

Feriado. Dia das Crianças e da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O saudoso Padre Donizetti era muito devoto da santa, consequentemente, Tambaú também. Eu sou devoto, desde criança. No dia de Nossa Senhora Aparecida, acordei com som dos fogos de artifício dentro do meu quarto. Carreata na porta de casa às 9 da manhã!
Tinha combinado de ir na casa do Che a tarde para gravar uns cd's. Eu liguei pra ele e fui. Fiquei pouco tempo. Acabou que nem gravamos cd nenhum. O dia estava esquisito e meu humor também. Fomos para a praça umas 4 e meia da tarde. Liguei para Lis e ela apareceu. No Bar do Geraldo, tomávamos uma cerveja, onde mais umas 10 pessoas faziam o mesmo. De repente, duas cenas se instalaram. De um lado, na frente da igreja, fiéis se juntavam para a procissão. No auto-falante da igreja, o padre chamava a população e rezava a Ave-Maria. Do outro lado, no Bar do Geraldo, aqueles 10, vestidos basicamente de preto, com all stars sujos e rasgados nos pés, conversando e rindo. No auto-falante do aparelho de som, tocava um rock pesado, que nem dava pra identificar qual banda era. O padre passou duas vezes, de batina e tudo, e nos cumprimentou. Nós, Lis, Che e eu, estávamos no meio dos dois cenários. E começamos a conversar sobre religião, Deus, felicidade. A cerveja bateu e tudo ficou mais caótico. Na minha cabeça, as duas peças encenadas ali na praça, em volta de nós, estavam em slow motion. Na nossa turma, o clima esquentou, e antes que fervesse, cortamos o assunto e fomos embora. Fecham-se as cortinas.
A noite teve ensaio, do "Sexo dos Anjos", anjos que aparentemente estavam em mais uma de suas crises, mas era só impressão. Lislaine nem apareceu. Ficamos Che e eu no posto depois, conversando. Tudo ficou no lugar.
Fui pego de surpresa na quarta-feira. Paulo marcou ensaio da peça "Somos todos do jardim da infância". Estou sem computador em casa e fica complicadíssimo montar as coreografias. Saí da biblioteca mais cedo, decidido de que ia fazer o ensaio ser produtivo. Cheguei em casa, me sentei no sofá com o texto no colo. Na cabeça, a ideia de que "sou capaz e vou conseguir criar". Fiz umas anotações em 4 cenas. Saí animado de casa e mal podia esperar chegar a hora de ver as cenas acontecendo. Na quinta-feira, o ritual foi o mesmo. Cheguei da biblioteca e fui estudar o texto. Foram dois dias de ensaios produtivos. 5 cenas novas montadas, agora faltam 23. Teremos 2 dias de ensaio por semana, e depois de montadas as cenas, virão as coreografias. Os deuses do teatro vão nos ajudar e tudo ficará pronto para a estreia no mês que vem.
Comecei a tomar um remédio essa semana, para controlar a ansiedade e fazer com que eu pare de fumar. Reduzi mais da metade do número de cigarros que estava acostumado a fumar, mas ainda não parei. Estou uma seda desde então, calmíssimo. Isso não impediu que Che e eu tivéssemos outro stress na sexta-feira. Coisa boba, pequena, mas nos irritamos muito. Odeio ser mal interpretado e pagar o preço por isso, sem merecer. Che odeia ser acusado daquilo que não fez e ser comparado a outras pessoas. Antes, de manhã, a biblioteca realizou mais um projeto. Recebeu as crianças de uma creche da cidade, a "Casa da Criança", para apresentar vídeos e livros sobre o meio ambiente, mais especificamente, sobre a biodiversidade. Depois, Fatinha e eu começamos a trabalhar em cima do teatro de fantoches que os alunos da Quintal das Artes apresentarão na Semana do Livro, na biblioteca.
A noite de sexta-feira não prometia nada demais. O remédio me deixou extremamente lento, devagar, e eu cheguei até a sentir a perda de alguns reflexos. Peguei um suco no posto e na hora de entregar o dinheiro. entreguei o suco para o rapaz. Depois, ele perguntou se eu queria que ele abrisse. Eu disse que sim e não entreguei a garrafa pra ele. #tenso. Che estava de John Móvel. Lis apareceu também. Fomos dar uma volta e paramos no Deoclides. O bar estava lotado e não tinha mesa vaga. Lembrei o Che do que ele tinha dito sobre ir para Santa Rosa, uma cidade vizinha, no sábado. Ele disse que topava ir naquela hora. Topamos e lá fomos nós. Ajudei no combustível e pegamos a estrada no John Móvel. Lis ficou, porque precisava resolver uns problemas. Sabíamos que era um pouco arriscado. Fazia tempo que o John Móvel não era testado neste tipo de situação. Na estrada escura, poucos carros cruzavam conosco. Ouvíamos música no meu celular, já que o John Móvel ainda não tem som. Teve Van Halen, Cranberries e Culture Club, a banda do Boy George. Chegamos. Nossa, não ia a Santa Rosa há mais de 10 anos. Assim como o Che, tenho familiares que moram lá, mas já tinha avisado pra ele: nada de contatos familiares naquela noite! Mesmo assim, ele quis passar na frente da casa do seu avô, para mostrar para mim o bosque onde brincava quando era criança, o seu quintal. O avô dele estava na calçada e aí não teve jeito. Conheci o avô, uma tia e uma prima do Che. Estava muito sem graça, mas todos foram muito simpáticos.
Encerrada a visita familiar, continuamos o tour pela cidade a bordo do John Móvel. Chegamos no centro da cidade, na praça da igreja Matriz, onde os pais do Che se casaram. Lá existem muitos bares e lanchonetes em volta. Tinha muita gente, bonita e bem vestida. Descemos do carro e fomos dar uma volta. Rolava um som numa choperia. Andamos um pouco e, quando paramos, avistei alguém num banco da praça, perto de nós, que me chamou a atenção. Era muito interessante e olhei até ser correspondido. E fui. A troca de olhares rolou durante uns 10 minutos, enquanto conversava com Che. O outro lado também era uma dupla. Você fica nessa de olhar até ter certeza do que é que está acontecendo, e quando saca o que é, alguém tem que se mexer. Levantou e saiu. Saí atrás, descemos a rua. Nessa hora, já estávamos sozinhos. Primeiro, rola uma conversa.
Oi! Oi, tudo bem? Tudo bem e você? Tudo bem! Que bom! E aí? E aí, tudo bem?... ah eu já perguntei se estava tudo bem... Quantos anos você tem? 22! E você? 25! Você mora aqui? Não! Eu também não! Sério? Sim.
Éramos duas pessoas de fora, tentando passar um final de semana diferente.
Você namora? Não! E você? Ah, mais ou menos estou enrolado com uma pessoa que também é de fora, mas não está dando certo. Namoro a distância é complicado.
E fala, fala, até que: e agora? Não tem mais nada pra falar. Os olhares se cruzam, dessa vez mais apertados e mais assustados. Há um silêncio, mas rola uma música nos ouvidos uma música particular. Os dois vão chegando perto e o beijo rola, lento, um tiro no escuro. Depois clareia tudo e fica mais quente, e mais seguro. Foram 20 minutos de carinho. O coração aguenta isso tudo? Não tô falando de paixão, mas sim de química, aquela que faz o coração bater mais rápido, o sangue passar apressado pelas veias. Tem aquela vermelhidão no rosto. Você pensa que o mundo é seu, e esquece de tudo. Trocamos telefones. No meio do caminho de volta a civilização, mais um beijo. E tudo ficou na promessa do que poderá ser da noite seguinte, se haverá outro encontro, antes do riacho seguir seu curso normal, e a lua mudar.
Encontrei o Che, que me esperou numa outra rua, abastecemos o John Móvel e pegamos a estrada de volta pra casa. Agora rolou AC/DC, Stones, Beatles e Janis Joplin. Che me deixou em casa. Ele não topou comer lanche. Era 1 e meia da manhã. Entrei em casa, comi uns salgadinhos. 2 e 20 da manhã, antes de desligar a TV, recebi uma mensagem no celular: "Adorei ter conhecido você. Quero muito te ver amanhã. Bjos".

Estúpidos

Sexta-feira tem se tornado o melhor dia da semana. Está no meio de tudo. Está antes do possível fracasso da noite de sábado e depois da semana que é sempre cansativa. É o dia em que estou mais disposto pra sair, conversar, sem muita expectativa de que nada extraordinário aconteça, mas com muita vontade de que dê tudo certo. É tipicamente uma noite de muitos carros na rua e muitos copos de cerveja na mesa. Tem dia em que a tranquilidade da cidadezinha do interior é até agradável. Na quermesse que está chegando ao fim, o grupo Los Borracheros se apresentaram. Pra mim, é um grande dejavù. Assisti muitos shows deles, que fazem um som latino, na época em que candidatos a prefeito faziam comício com muita bexiga e papel voando. Era criança e acompanhava meus pais. Nossa turma tinha pensado em ir até lá ontem, mas os planos mudaram. Lis estava requisitada nessa noite. Perguntaram por ela assim que cheguei no posto. Então, tínhamos que ficar num local visível e propício para o possível encontro. E deu certo. Enquanto ela via a lua do outro lado, Che e eu comíamos salgadinhos. Cerveja não estava descendo ontem. Acho que era o frio. Tomamos uma só e, quando a cidade esvaziou, fomos embora também.
Em casa, tenho feito muita coisa que há tempos planejava. Estou revendo uns dvd's, ouvindo músicas esquecidas, lendo. Estou sem internet temporariamente. Meu notebook teve problemas com a tela e está no conserto. E ele resolveu quebrar na quarta-feira, justamente no dia em que meu pai acordou com o típico mal humor ariano, aquele sem motivo e sem direção. Meu pai consegue ser pior que eu quando acordo nesses dias. Ele foi buscar meu note na biblioteca com a cara de quem tinha acabado de chupar um limão. E falou: "por que você não levou para arrumar antes de quebrar de vez e bla bla bla..." Sim, meu note vinha apresentando problemas há mais de uma semana, mas como ainda dava pra usar, deixei pra lá. Agora vou pagar caro por isso. Nessa de ficar sem internet, tenho aproveitado para colocar meu sono em dia. Fico anestesiado, como se tivesse tomado o mais potente dos calmantes. Tenho medo de abrir a boca de sono e engolir algum objeto.
Minha semana no teatro foi produtiva, não como deveria, mas foi. As coreografias da "Casa de Brinquedos" estão quase todas montadas. A produção da peça é difícil e leva tempo, por isso, Paulo optou por estrear "Somos todos do jardim da infância" antes. Isso me pegou totalmente de surpresa. Temos em mente a data de 23 de novembro. Nessa semana, o número musical com "Banho de lua" ficou pronto. Um pequeno insight com "Help" dos Beatles, resultou numa calça minha rasgada. Quem mandou me abaixar demais? Ainda bem que ninguém percebeu. Ô urucubaca! O fato é que meu bloqueio criativo pra essa peça vai acabar nesse feriado quase prolongado, nem se for na marra.
Começamos também os ensaios para a apresentação de "Sexo dos Anjos" no festival de Varginha, que acontece no fim do mês. É, não tenho muitos motivos para conseguir dormir bem, sem ataques de sonambulismo. Numa manhã aí dessa semana, minha mãe entrou no quarto e me acordou. Eu me virei pra ela e disse "você é um garoto infantil". Ela: "o quê?". E eu: "é, está escrito aqui no teatro, 'garoto infantil'". Numa outra, no meio de algum sonho bizarro com os meus amigos, Che foi até a mim e disse "meu amor, está na hora de acordar!". Acordei assustado e vi que era minha mãe na porta do quarto. Ah, fora os pesadelos que tenho nos cochilos depois do trabalho. Depois de um deles na quarta-feira, acordei dando a volta no mundo. Não sabia que em eu era e demorei muito pra reconhecer minha casa. Mas tudo isso já foi muito pior na minha adolescência. Já tentei subir no guarda-roupa. Uma vez, meu pai foi me buscar na esquina de casa. Foi quando ele e minha mãe passaram a esconder as chaves de casa toda noite. Ah, e teve também a vez em que saí correndo, gritando, derrubando as cadeiras da copa e dando socos no suposto monstro que corria atrás de mim. #tenso.
Quinta-feira foi um dia difícil também. Sabe quando você perde oportunidades de ficar calado? Você caça problema, sarna pra se coçar. Pois é. Falei demais, fiz pergunta que já sabia a resposta, reclamei demais da vida e ouvi o que não queria. E o pior de tudo é que depois, ainda achei que estava em condição de cobrar alguma coisa. Ô urucubaca! Isso rendeu uma conversa difícil, dessas de novela, intermináveis e reveladoras, no final da noite. Sinto muita falta de alguém pra conversar. O único que me ouve é o Che. As outras pessoas que me cercam não saberiam me entender, não dariam nenhum conselho proveitoso, ou não estariam preparadas pra uma barra tão pesada. Já teve gente que até se aproveitou (nesses momentos aí de fraqueza em que preciso esvaziar o copo que está cheio) pra tirar um sarro da minha cara, ou então pra aliviar os próprios problemas. O Che é o único que ainda me suporta. Eu faço a minha parte também. Estou com ele para o que der e vier, pra quebrar qualquer galho. Mas mesmo assim, acho que às vezes fica tudo muito pesado pra nós.
Ainda na quinta, antes disso, Éder apareceu. Entrou mudo e saiu calado. Cumprimentou nós todos estranhamente. Sentou conosco no posto com a cara fechada e logo foi embora. Eu não tinha o que dizer. A questão não era não querer falar, mas sim não ter o que falar. Nenhuma demonstração de que a situação iria se resolver, então, ficou tudo como está.
Depois, alguém que andava meio sumido apareceu, alguém que apareceu na minha vida no começo do ano numa das vezes em que estive solteiro, e que quase ganhou meu coração. Tivemos um lance rápido e bom, mas que acabou por uma certa instabilidade sentimental que ainda ronda, pelo que percebi. Quis falar comigo. Entrei no carro e fiquei um tempão lá, ouvindo lamúrias amorosas e dando conselhos. Se fosse bom, a gente vendia né, mas já é um consolo conversar. Sei bem como é. Ainda mexe comigo, muito.
Sobre a noite de hoje, ainda não decidi nada. Muita coisa conversada nessa quinta-feira foi determinante para o que vai rolar hoje. Acho que preciso dar um tempo, aliviar a minha barra e dos outros, que me carregam nas costas. Estou sobrecarregando meus amigos. Não quero bloquear, podar ninguém. Todo mundo tem direito de correr atrás dos seus lances, suas vontades, de fazer sua própria história. Me incomoda demais o fato de que viro preocupação das pessoas toda noite, de que gostem de mim e tentem me proteger de mim mesmo. Podem deixar, eu me aguento. Será a noite da liberdade.

Visões do futuro

A cidade amanheceu coberta de papel. Quase não se via sarjeta. Do caminho de casa até o meu local de votação, não havia uma rua que não estava assim. Dia de eleição é sempre um dia agitado. As pessoas ficam alvoroçadas. As ruas ficam lotadas de pessoas que você nunca viu, que moram na mesma cidade que você, mas que você nunca viu. Existe algo diferente no ar. Pra mim, sempre foi assim. Talvez seja um sentimento de que é o dia em que você pode dar um grande passo, que pode modificar a sua vida e de todo mundo que conhece. É uma decisão que não permite erros, equívocos, indecisões. Você faz a sua parte achando que tem razão, e torce pra que ela prevaleça perante os milhões que, assim como você, esperam o mesmo. Esse foi meu voto mais consciente. Fiz um esforço pra me inteirar das propostas, dos acontecimentos, do histórico dos candidatos, pra fazer o melhor possível na hora da eleição. Os resultados me surpreenderam bastante. Eu amo meu país, sinto orgulho do Brasil, adoro o povo brasileiro, e não trocaria minha nação por nenhuma outra, mas, dessa vez, não foi possível não me decepcionar. Parte dessa mesma nação que tanto adoro, elegeu um palhaço analfabeto (que durante sua campanha, só fez zombar da cara do eleitor) como deputado federal, mesmo sabendo que ele traria de volta várias laranjas podres que já pintaram e bordaram com o dinheiro público e saíram ilesos da situação. Outra parte da nação colocou no poder uma dessas laranjas podres, sem quem ela precisasse da esmagadora soma de votos do palhaço companheiro de partido. Longe daqui, no Distrito Federal, outra parte da nação mandou para o segundo turno uma candidata a governadora completamente despreparada, inclusive psicologicamente, que entrou de gaiato no navio, assumindo o lugar do esposo que se retirou por ter a ficha mais suja que pau de galinheiro. E não parou por aí! Teve jogador de futebol endividado, cantor de pagode que bate em mulher, cara metido a operário e sindicalista que participou de esquema de desvio de dinheiro, político com a ficha mais suja do país que só está esperando um sinal verde pra comemorar a vitória, uma infinidade de personagens que, se não entraram, se deram muito bem nas urnas. O voto obrigatório perdeu o sentido por aqui. Pouca gente sabe a importância que o direito de decidirmos os governantes do nosso país, tem na nossa vida. É uma individualidade sem tamanho, não há mais pensamento no coletivo. Não acredito em voto de protesto, não dessa forma. Protestar é mudar os hábitos, é ler jornal, acessar sites na internet atrás de notícias, de informação, assistir o horário eleitoral com visão crítica, é não permitir ser feito de palhaço, é não dar atestado de burrice, é escolher certo e votar certo, fazer bom uso do direito que temos, direito que muitos lutaram pra conseguir, pra que hoje tivéssemos voz. Houve uma época em que não se podia falar de política, não se podia ter opinião, exigir nada, cobrar nada. Muitos deram o sangue pra que isso mudasse. Muitos morreram por esse ideal. Muitos que, amavam nossa pátria mais que nós todos hoje em dia, tiveram que deixá-la, porque não cabiam no sistema. Hoje, somos livres, temos voz, podemos exercer nosso direito de cidadão, e o que temos feito com isso tudo?
A votação foi tranquila. Encontrei Lis e Che na saída, duas pessoas com quem conversei muito sobre política nos últimos dias. Fomos dar uma volta, até pararmos no posto. Lis não ficou muito tempo, logo saiu, por um motivo muito nobre, um motivo que apareceu no sábado a noite, assim do nada, e está movimentando a vida dela nos últimos dias. Che e eu continuamos no posto, na companhia de algumas cervejas. Já tinha desistido de que alguma coisa proveitosa acontecesse nesse final de semana. Sexta-feira teve uma noite complicada. Recuperados, sãos e salvos do temporal que nos pegou de surpresa durante a tarde, nos encontramos no posto. A chuva ainda ameaçava cair. Demos umas voltas e paramos no Geraldo. Já falei desse bar por aqui. Gosto de ficar por lá. Tá sempre tocando rock e podemos ficar ao ar livre, na praça, tomando cerveja. E o pessoal que frequenta lá é muito sossegado, todo mundo fica na paz, numa boa. Éder apareceu e se juntou aos três mosqueteiros. Papo vai, bebida vem, e alguns comentários desnecessários e visivelmente mentirosos começaram a tornar a noite um pouco desagradável. Che, Lis e eu somos da paz. Nós temos nossos rolos, nossas discussões e quebra-paus, mas somos muito sinceros. O que temos que dizer, dizemos e pronto! Não ficamos com leva-e-traz, e não deixamos nenhum assunto mal resolvido entre nós, e confiamos uns nos outros. Mas nem todo mundo é assim. Algumas atitudes vão se somando e moldando o caráter das pessoas, aos nossos olhos. Não engulo essas tais atitudes há muito tempo. Já fui vítima delas algumas vezes, e só não abri mão dessa amizade por causa dos meus outros amigos, que não tinham nada a ver com a história, e que ficariam divididos. Há tempos venho percebendo essas más intenções, e agora o copo está enchendo. O fato é que minha amizade com Éder anda complicada. Não aceito seu comportamento infantil, sua íncrivel capacidade de criar mal -estar, e sua leve intenção de sempre jogar uns contra os outros. Nessa noite, ele mesmo trouxe a tona de novo uma história que acabou de ser abafada, um atrito que ele teve com Leandro, e trouxe de uma forma que, pra mim, não foi nada convincente, e pior, envolvendo meu nome, eu que não tinha nada a ver com a história. Anteriormente, ele teve a oportunidade de se explicar, e não fez. E isso pra mim foi como assinar atestado de culpa. O fato é que ele e eu nos estranhamos, como dois cavalheiros, só na base da palavra. Nessas horas, não tenho papas na língua. Se não deixar claro o que penso, não sou eu. Enfim, Leandro apareceu depois e contou uma outra parte da história. Bom, o clima estranho da noite já estava estabelecido, apesar de todos estarmos nos tratando super bem. A essa altura do campeonato, tínhamos consumido 4 litros de cerveja. Todos passaram ilesos por isso, eu não! Não sei o que houve, mas passei mal. Lislaine já tinha ido embora, e os meninos foram me acompanhar até em casa. A cerveja não caiu nada bem. Estava com sono, muito cansado, indisposto, bebi e aí, sei lá. Ou era então o fato de ter de me segurado tanto pra não dizer algumas verdades cruéis pra quem merecia.
Novinho em folha de novo, a noite de sábado chegou, depois de uma tarde imprestável que se resumiu em cama-sofá-cama-cozinha-sofá-cama. O destino foi o Mancha. Rock n' roll de sempre, vinho básico, papo descontraído com Maikinho e Joãozinho, que estavam conosco! Passou pela nossa cabeça uma ida até Palmeiras. A Lis estava animadíssima, mas Che e eu nos recusamos, talvez por comodismo, pela cidade também ser pequena e ter tantos atrativos quanto aqui. Bom, mas Deus escreve certo por linhas tortas. O lugar da Lis no sábado a noite era pra ser Tambaú mesmo. Éder apareceu e o clima para o lado dele não estava bom. Eu posso falar só de mim mesmo, mas as atitudes dele não vem incomodando só a mim na nossa turma. Logo ele foi embora, de novo, mais uma vez sem tentar se explicar, sem esclarecer as coisas e sem deixar tudo bem.
Diante desse final de semana sem muita imaginação, a conversa entre Che e eu na praça, no domingo a tarde, depois das cervejas no posto, só podia ser uma versão bem humorada de como mudarmos nossa rotina no final de semana. Sempre disse pro Che que ele é um grande acomodado, que ele prefere o fácil, o terreno conhecido, que não se arrisca. Lislaine e eu estamos sempre atrás, e os três se condenam ao ostracismo. Che está consertando seu carro, eu penso em tirar carta no final do ano e arranjar um carro também. Nos apoiamos na ideia de que, quando não tivermos mais que andar a pé, não haverá essa rotina, que nossa vida se abrirá para novas possibilidades, de baladas, de pessoas, de oportunidades. Vamos aguardar. Espero ainda ter muita história pra contar.
Enquanto bebíamos mais uma ou duas cervejas e elas iam subindo, o papo começou a ganhar outros tons. Por causa das últimas discussões que tivemos, ficar sozinho com o Che não tem sido tão fácil. Nada demais, simplesmente porque me sinto às vezes a pessoa mais entediante do mundo, a que sempre está falando de coisas chatas, monótonas, desnecessárias e inconvenientes. Sei lá, sinto uma certa obrigação de ser legal, depois de ter me comportado de maneira grosseira há alguns dias. Nós conversamos assuntos que só nós suportamos, assuntos que só converso com ele. São viagens, pensamentos que a pequena embriaguez proporciona, e a gente embarca, um na viagem do outro. Essa tarde foi legal. Não sei porque, mas o assunto principal foi o futuro, talvez por causa das eleições. A essa hora, já aguardávamos ansiosos algum resultado. Que surpresas o futuro reservava para o nosso país? E pra nós, dois amigos beberrões em um domingo a tarde? Ah, o Che vai se casar, ter filhos, netos. Vai ser dedicado com a sua esposa, que mesmo que não seja a mulher dos seus sonhos, ele vai amar muito. Vai ter um emprego que vai suprir as necessidades da sua família, até se aposentar e virar um velho insuportável. Vejo Che morando aqui em Tambaú pra sempre, não sei se ele teria coragem de um dia ir embora. Não sei porque, mas eu tenho a impressão de que ele um dia vai esquecer de tudo que vivemos. A Lis não fica aqui, vai fazer faculdade e, quando se formar, não bota mais os pés na cidade nunca mais. Vai virar professora de dança e essa será sua profissão. Vai me mandar cartões de Natal e me chamar pra batizar seu primeiro filho, com seu marido malucão. Ela não esquecerá nossa história. O meu futuro é o único que não consigo imaginar, desenvolver uma tese. Olhar de fora é muito mais fácil. Che diz que não vou morrer aqui, que vou embora, trabalhar em outro lugar, que não vou acabar sozinho, que terei uma companhia, e que o Teatro será sempre a minha profissão, de um jeito ou de outro. Eu só tenho certeza que nunca esquecerei tudo que vivemos, mesmo quando tudo mudar, e cada gota d'água tiver que seguir seu caminho nesse riacho. Enquanto isso não acontece, temos que fazer a diferença, positivamente se possível, um na vida do outro. Não estamos aqui juntos vivendo tudo isso por acaso.
No domingo, depois de mais uma dessas noites em que não fazemos nada juntos, desci sozinho por outro caminho. Quis pegar algo pra comer na lanchonete perto do Santuário, e como ninguém estava afim, fui lá, tendo como companhia somente meu mp3. A solidão me caiu bem nessa hora, como uma luva. Nós vamos vivendo, os dias vão passando, e às vezes eu me esqueço, deixo de lado, substituo. Foi bom lembrar de tudo, de quem sou, do que gosto, dos meus sonhos, das minhas frustrações, paixões, do que me deixa imensamente feliz, dos lugares que gosto de frequentar, das baladas que gosto de ir, das pessoas que quero perto de mim, da comida preferida, do beijo mais incrível, isso tudo sem questionamentos, sem explicações. Só minha vida e eu, meu passado e meu presente. Foi bom me encontrar.

O temporal

07:00 hs - Minha mãe entra no quarto e diz "está na hora"... Cinco segundos pra eu assimilar o que é que está na hora e pimba! Estou de pé. Na época do colegial, minha mãe era mais elétrica. Abria a janela, lançava o sol na minha cara e dizia animadíssima "vamos acordar... você está atrasado". Foi o que fez durante um bom tempo eu acordar com o rádio programado na fm. Um despertar sofrido que tenho lembrança é de uma vez, quando estava na 4ª ou 5ª série, e fui acordado, num dia de prova de Geografia, com o som do rádio na cozinha, que estava tocando uma música do Leonardo, algo mais ou menos assim: "horizonte azul, vermelho, luzes a brilhar..." #tenso. Hoje em dia, ela entra, diz que "está na hora" e sai. Depois de um tempo, volta na ponta do pé, em silêncio, pra ver se eu realmente levantei. Pensa que eu não vejo. Às vezes, eu já estou de pé. Outras vezes, eu saio da cama pra valer quando a vejo pela segunda vez.

07:05 hs - Corre pro banheiro, escova os dentes. O cabelo, deixa pra depois. Aí é a hora mais chata, escolher a roupa. Tem dia que não gosto de jeans, tem dia que não gosto de tactel, tem dia que não gosto de xadrez. A camiseta é a parte mais difícil. Nunca nenhuma me agrada. Essa já tá velha, essa me engorda, essa já não serve mais mesmo, essa não combina com a calça. Tem dia que o jeito é optar por uma sobreposição: camiseta e camisa. Me visto e corro pra pegar o All Star, que também tem que combinar, senão fica um desastre. Pronto! É hora de colocar as chatas lentes de contato. Ah, tem manhã que meus olhos parecem ter um caminhão de terra, e ardem. Fiz o antipático um dia desses e tomei café-da-manhã de óculos escuros. Ah e agora arruma o cabelo! Passa pomada e arrepia.

07:20 hs - O café-da-manhã é sempre o mesmo, pão com manteiga e leite. Não sinto fome logo que acordo. Só como mesmo pra larica não atacar feio depois. Chega a hora do primeiro cigarro. Toda noite antes de dormir penso em largar essa porcaria, aí digo pra mim mesmo que não vou fumar no dia seguinte. Mas depois do café-da-manhã, esqueço a promessa. Fumo pra me aguentar! Tem dia que é difícil mesmo, só na base da nicotina. Sou ansioso demais. È um cigarro pro café-da-manhã, outro pra quando chego na frente da biblioteca, outro pra quando entro, enfim, tudo é motivo pra acender um cigarro.

07:40 hs - Meu pai me dá carona todos os dias, até perto do trabalho. Aí tem mais uma caminhada de uns 5 minutos e chego na biblioteca. Nesse percurso, estou sempre com o mp3 do meu celular ligado. Tem dia que acordo mais mpb, outro dia mais rock, no outro rock nacional, e em outros, melancolicamente pop dos anos 90. Marcinha, que é funcionária, está sempre adiantada e chega primeiro que eu. Adoro encher o saco. Fico atrás dela quase o dia todo, imitando o papagaio do Chapolin Colorado e perguntando se ela quer casar comigo. Antes, eu a assustava, mas isso a deixava muito brava. Quando vou na cozinha, ela começa a conversar comigo e não pára mais. Fala, fala, pelos cotovelos. Quando eu volto para o trabalho, do meio da biblioteca, ainda ouço ela falando, sozinha.

07:50 hs - Josi chega.. É ela que abre a biblioteca todos os dias. Fatinha logo aparece. Ela é sempre a mais animada. Nunca vi a Fatinha de mal humor, pra baixo. Che chega depois. Tem dia que dá medo de olhar pra ele, chega com uma cara péssima, com olho inchado de sono. Passa uma meia hora e ele volta ao normal, aí ele fala, conversa, dá risada. Ah, essa semana a gente não está se estranhando. Só na segunda-feira que rolou um mal-estar por causa de uma ou outra atitude idiota de ambos, mas que resolvemos no mesmo dia. Sim, saímos só nós dois na segunda a noite, a pedido meu. Queria acertar as coisas, saber o que estava acontecendo. Nos últimos dias, qualquer palavra era interpretada como agressão, como ofensa, e acabávamos num climão danado. Mas tudo está certo agora. Lis trabalhou a semana toda de manhã. Normalmente, ela só aparece a tarde. Ela não teve aula, por causa dos Jogos da Primavera, então ficou com a gente. Nossas conversas pela manhã tem sido sobre política, influenciados logicamente pelas manchetes da Folha de São Paulo. Um ou outro lê algo relevante no jornal, e nós comentamos, discutimos. Ontem a noite, depois do teatro e de ter ido embora mais cedo por causa da maldita lente do olho esquerdo estar me incomodando demais, acompanhei os últimos 3 blocos do debate dos candidatos a presidência da república. A Dilma, como citei há algum tempo aqui mesmo no blog, é pra mim um boneco de ventríloquo, e com a fisionomia de uma máscara do carnaval de Veneza, como disse Aguinaldo SIlva no twitter essa semana. A candidata, além de demonstrar um despreparo visível e uma grande falta de jogo de cintura diante das alfinetadas do velho Plínio, não apresentou nenhuma proposta inovadora, mas sim, primou pelos elogios aos 8 anos de governo Lula e, afirmou e reafirmou que dará continuidade a todos os projetos do PT, mais bolsa-família, mais "minha casa, minha vida". Tudo mais do mesmo! O que me chamou a atenção foi ela ter dito que sua meta é transformar o Brasil num país desenvolvido. Como isso pode acontecer se o Brasil possui um grande caos na saúde (exatamente nas regiões onde ela tem mais eleitores, vai entender!), falhas na educação, a segurança nem se fala? A meta é pagar loucamente a dívida externa para se livrar desse calo e tornar o país mais independente, enquanto deixa em banho-maria as situações problemáticas com o assistencialismo maquiado de política social? Assistencialismo, que fique claro, que garante muito voto e a permanência do PT no poder por mais 4 anos. Se uma parede apresenta um buraco, uma rachadura, não adianta tapá-lo com uma massa fajuta, só pra visita não ver, porque, uma hora ou outra, o buraco vai se abrir de novo. Bom, de mensalão e escândalos, nem se tocou no assunto. O candidato Serra usou de um discurso parecido. 20 entre 10 respostas do candidato começavam com "quando eu fui governador...". Onde estão as novas propostas? E já que era pra se falar da época em que era governador, por que Serra não falou dos ataques da facção criminosa a São Paulo, do seu súbito desaparecimento enquanto o Estado inteiro esperava uma posição, e o que ele fez foi jogar a polícia militar contra a civil, piorando muito a situação? E dos problemas da educação, das greves dos professores e alunos nas faculdades, e de como era difícil e intempestivo entrar em um acordo? Serra também me decepcionou em sua campanha. Ver que as pesquisas o deixavam distante da primeira candidata, não era motivo pra desespero. Não havia necessidade do descontrole com a imprensa e nem das declarações de fracasso que deu nos jornais e na televisão. Há 3 semanas da eleição, o candidato dizer que sua campanha precisava de um RESTART (sem trocadilhos, ok?) é, no mínimo, uma grande demonstração de despreparo. Poxa, será que nem o seu marketeiro, ele soube escolher direito? De qualquer forma, o PSDB governou bem São Paulo nesses últimos anos. O Estado cresceu, se desenvolveu, e pode ser que dê certo no governo presidencial. Mas Serra é meu candidato se houver um segundo turno. No primeiro turno, meu voto é da candidata Marina Silva. Gosto de suas propostas, sua sensatez e seriedade, sua história, e acredito na competência dos candidatos do Partido Verde, um partido relativamente novo que vem construindo uma história e que poderá chegar longe, numa próxima vez. Marina tem experiência, garra, lutou muito pra chegar onde chegou. Admiro-a muito por ter saído fora do PT quando estourou a bomba do mensalão. Nesses casos, ou você se junta com a turma de ladrões, ou cai fora, não há espectadores. E Marina saiu, foi para um partido que defende os mesmos interesses que ela, e fez uma campanha honesta e digna. O Plínio é um fanfarrão, uma figura, muito inteligente, idealista. Mas esse idealismo pode ser bom até certo ponto. Mudar o Brasil para o que ele pretende não se faz em 4 anos, nem em 8 anos. Muitos interesses estariam em jogo, são cartas que estão na mesa do mesmo jeito há muitos anos, e o Piiisol encontraria muitas dificuldades para promover essas mudanças sociais. Queria muito ver como um partido pobre de esquerda se sairia no governo do Brasil, mas essa não é uma época para se apostar em incertezas desse porte.

09:30 hs - As manhãs na biblioteca costumam ser agradáveis. Logo que chego, fecho os livros, de empréstimo e de frequência. Temos que ter o controle diário disso: quantos livros saíram para empréstimo, quantas pesquisas foram realizadas e a frequência de sócios. Marcinha faz sempre chá e café com bolachas e sempre dou um escapadinha até a cozinha. Sempre atualizo o blog da biblioteca nesse horário. Gosto muito de fazer isso. Acho ótima essa interação que podemos fazer com os sócios através da internet, dando dicas de livros, de autores, relembrando grandes obras e postando notícias sobre o mundo literário. Aliás, quem quiser acessar e nos seguir, o endereço é http://bibliotambau.blogspot.com . O movimento na biblioteca de manhã varia bastante. Tem dia que a gente mal chegou e já tem gente na porta querendo entrar. Tem dia que não aparece quase ninguém, quando chove por exemplo.A hora passa rápida de qualquer forma.

11:15 hs - Almoço na biblioteca todos os dias, no mesmo horário da Marcinha e da Josi. Era cansativo demais ir a pé pra casa todo dia e voltar no período de uma hora. É divertido! Minha mãe sempre manda suco. Refrigerante durante a semana, nem pensar. Josi, Marcinha e eu batemos altos papos, rimos muito. Depois, cada um lava a sua louça e eu fico na internet até dar meu horário. Passo praticamente o dia todo na internet. Fico no twitter, no e-mail e no blog da biblioteca. Gosto de saber o que está acontecendo, ver os trending topics, as mensagens, afinal, trabalhamos com cultura e informação. Adoro trabalhar na biblioteca. Gosto de ficar no atendimento, de indicar livros, de procurá-los para as pessoas. Só não gosto muito de pesquisa. Me embanano todo e quase sempre acabo pedindo uma ajuda pro Che, que é fera nisso. Gosto também de fazer carteirinhas dos novos sócios. O que mata é a arcaica máquina de escrever, enquanto o arquivo e as fichas não são informatizadas. Na verdade, nunca imaginei uma biblioteca sem o som de máquina de escrever. A biblioteca vem ganhando cada vez mais sócios. Cada mês, temos tido um faixa de 30 sócios novos, um por dia. Isso faz nosso trabalho ser mais gratificante, principalmente quando percebemos que a grande maioria são crianças e adolescentes.

14 hs - Nessa hora, todo mundo já voltou do almoço. A tarde costuma ser mais corrida. O movimento na biblioteca aumenta e o cansaço também. Essa semana foi extremamente cansativa pra mim. Na terça-feira, tivemos ensaio da "Casa de Brinquedos". Ensaiei com os atores uma nova coreografia, da música do "Trenzinho". Não fiquei muito satisfeito com o resultado. Às vezes, imagino a coreografia mas quando vamos executá-la não sai exatamente da forma que eu pensei, aí é hora de fazer uns ajustes até chegar exatamente onde queremos. Na quarta-feira, não aguentava de dor nas pernas. O ensaio tinha sido difícil, corremos uma maratona atrás desse trem hehe. Mas a noite foi de descanso. Fiquei no msn com a Lis e o com o Che, a quem ajudei a dar um jeito em alguns problemas no computador. Ontem a noite foi dia de ensaio de novo, com o pessoal do espetáculo "Somos todos do jardim da infância". Paulo não estava bem, e foi embora. Comandei o ensaio sozinho. Os atores apresentaram cenas de Nelson Rodrigues, num laboratório onde estamos estudando os conflitos. Depois, foi hora de nova coreografia, a primeira do espetáculo. Será "We go together", da trilha do filme "Grease - nos tempos da brilhantina". Baixou o John Travolta em mim e fomos ao trabalho. A coreografia ficou muito legal e os atores gostaram bastante também. Passamos a coreografia umas vinte vezes, e depois, no fim do ensaio, fomos para o texto. Saí de lá quase 10 da noite. Depois de passar pela casa do Paulo para entregar umas coisas, Che, Lis e eu fomos para o posto. Quando cheguei em casa, depois de ver o debate, meu caso foi "perda total", na cama.

16:40 hs - A tarde estava tranquila hoje. Paulo apareceu e depois de mais um papo sobre política, Che, Lis e eu ficamos na internet, investigando as fichas sujas dos candidatos a eleição desse ano. Percebi que o ambiente estava escuro. De repente, se ouviu um trovão. Fatinha foi até a porta e disse que vinha chuva forte por aí. Fui até lá ver e realmente, o tempo estava ficando feio. Em questão de minutos, a situação piorou. O vento que entrava pela biblioteca era cortante. As luzes da cidade se acenderam. Na rua, se via uma enorme cortina de poeira, correndo entre os carros apressados e as pessoas, que tentavam proteger os olhos. Nuvens negras apareciam, de um lado para o outro. A porta da biblioteca bateu. O dia estava virando noite. Minha mãe ligou no meu celular e eu pedi que meu pai, que estava no trabalho, fosse me buscar.

16:50 hs - Josi veio correndo do fundo da biblioteca assustada. Desligamos os computadores. Era hora de irmos embora, antes que o temporal nos isolasse na biblioteca. Che pediu pra ir antes da chuva, se despediu e sumiu de moto no meio da poeira. Josi e Marcinha fecharam as portas. Recolhi minhas coisas. Marcinha foi embora a pé, depois de eu pedir que tomasse cuidado. Os relâmpagos começaram e o céu estava cada vez mais escuro. Saímos apressados, depois de fecharmos tudo. Lis correu para a sua casa. Ela mora perto da biblioteca. O vento assustava. Agora, os motoristas dos carros estavam mais alvoroçados. Josi ficou nervosa. Ela não gosta de dias como esses, a assusta mortalmente. Entramos no carro da Fatinha para esperar meu pai chegar. Dizem que o lugar mais seguro em dias como esses é dentro do carro. O vento parecia que ia nos engolir. Alguns pingos grandes caíram no vidro. A chuva começou. Esperamos cerca de 10 minutos e nada do meu pai aparecer.

17 hs - Diante da demora, liguei para minha mãe, que me disse que meu pai não poderia ir me buscar pois o movimento no trabalho estava intenso. Meu pai trabalha numa farmácia da cidade, há anos,. Ele ganhou o respeito e a confiança da cidade por seu trabalho e tem uma freguesia grande. Bom, Fatinha ligou o carro e saiu para me levar para casa. Muita chuva no meio do caminho. A avenida José Gatto, que corta a cidade e fica perto da minha casa, parecia um grande lago. Carros na mesma situação que a nossa passavam por nós. Chegamos em casa e a enxurrada cobria a calçada. Há tempos não via um temporal desse aqui em Tambaú. Me despedi delas e entrei em casa. Minha mãe me esperava no portão. Ela me disse que meu pai tinha saído pra me buscar, assim que ela ligou para dizer que não precisava mais. A chuva continuava intensa. 10, 15 minutos e nada do meu pai aparecer. Começamos a nos preocupar. Aos poucos, o céu foi perdendo a sua escuridão. E a chuva começou a diminuir. Meu pai apareceu, são e salvo. Temporais geralmente são assim, nos pegam de surpresa na hora mais imprópria e causam transtorno para nós. Depois, ele passa e é hora de conferir os estragos que ele causou, as árvores que ele derrubou, as ruas que inundou. Mas, na maioria das vezes, ele só vem pra molhar a terra, lavar os telhados, encher os rios, e refrescar o tempo. É chuva passageira, com muito barulho e luz.

O meu quintal

A primavera chegou e trouxe a chuva com ela. A noite de quinta-feira foi chuvosa, e de folga. O ensaio de teatro foi uma noite antes. Aliás, correu tudo bem. Avançamos alguns passos. Meu bloqueio criativo dá sinais de desaparecimento. Os últimos dias tinham sido bem tensos,
complicados e demorados, aqueles dias que você não tem vontade de sair da cama e não quer ver a cara de ninguém, dias de ressaca moral, de arrependimento de ter dito o que não devia e pra quem menos deveria ouvir. Por isso, prometi pra mim mesmo que o final de semana seria bom. Antes dele começar, na sexta a tarde, Che e eu demos uma escapada da biblioteca, debaixo de chuva, e fomos visitar a feira do Meio Ambiente, no Salão Paroquial, promovida pelo Setor de Educação juntamente com as escolas municipais daqui de Tambaú. Exposições de reciclagem, historinhas de conscientização ambiental e teatrinho com as crianças! Na biblioteca, a frequência foi pequena. Dia de chuva é assim mesmo. Saí de lá às 5 com uma garoa e um sorriso no rosto porque a semana tinha acabado.
Saí a noite mais cedo do que de costume. Combinei de ir com a turma na abertura dos Jogos da Primavera, que é tradição aqui na cidade. Os alunos da escola Padre Donizetti, uma das mais antigas e importantes de Tambaú, são divididos em bandeiras, nas cores branca, azul, amarela e verde, e participam de campeonatos de várias modalidades de esporte. Passei quase toda minha vida na escola Padre Donizetti. Estudei lá desde o pré até a oitava série. Participei de muitos Jogos da Primavera. Na maioria, fui das bandeiras azul e verde, as que eu mais gostava. Jogar mesmo que é bom, nada. Só fiquei na torcida. Era uma semana que não tínhamos aula. A Lis nesse ano, está na bandeira branca. Ela estava lá no Ginásio de Esportes sexta-feira, representando a bandeira. Muitos alunos do teatro que estudam no Padre Donizetti, também compareceram. Ane e Isabelle são candidatas a Rainha dos Jogos da Primavera, premiação que ocorre na próxima semana. Carol e Caio são capitães da bandeira amarela. Bom, Che foi comigo na abertura. Nos encontramos na porta. A chuva continuava, mansa. Uma das minhas promessas para o final de semana era exatamente consertar o que não estava certo na minha relação com os meus amigos, arrumar o que estava estremecido. Era certo que eu não iria conseguir nada sozinho, sem a ajuda e a boa vontade deles se acertarem comigo também. Saímos do evento, Che, Lis e eu, debaixo de chuva, e sem muito destino. Passamos na praça, pensamos em ir no Deoclides, mas a chuva atrapalhava os planos. Mais cedo, quando ia para o ginásio, eu encontrei o Alan na frente do Santuário, onde ele trabalhava na quermesse. Nos falamos cordialmente e combinamos de nos falarmos mais tarde. Na falta de lugar pra irmos, decidimos ir na quermesse. Che não se animou muito, mas foi com a gente. Chegando quase lá, encontramos Éder que se juntou a nós. Na quermesse quase vazia, a pedida foi um pastel e uma cerveja. Pastel de quermesse só não é melhor que o pastel do japonês, da lanchonete da Paulista, onde comia todo domingo de manhã. Era sempre pastel de calabresa, e depois um quibe. Para beber, coca-cola. A noite estava agradável. Sentia que o clima estava bom entre nós. Eu precisava recuperar aquilo que era nítido que tínhamos perdido nos últimos dias, a agradabilidade e a fluência de estarmos juntos. Tudo corria bem até Alan se juntar a mesa conosco, e a velha rusga que existe no relacionamento dele com Éder, aparecer. Sim, Alan falou demais e acabou respingando em mim. Me senti um grande idiota, por estar ali, por ter ficado feliz de termos nos juntado a ele essa noite. E ele é assim, quando a bomba estoura, ele sai fora, pra depois aparecer com cara de cachorro sem dono como se nada tivesse acontecido. Dito e feito, ele saiu para tirar as toalhas das mesas, na quermesse que já estava no fim. E foi o fim pra nós também, que fomos rumo a praça. Ah, eu sou um cara que não frequenta missas, que bebe todo final de semana, que fuma compulsivamente, que tem ataques exagerados e comete sincericídios, sou ciumento, grudento, tenho amores impossíveis, platônicos, mal-resolvidos, mal-acabados e a distância, e sofro por cada um deles, falo palavrão, ah e o inferno me espera. Bla bla bla... Che tentou conversar comigo sobre o ocorrido, mas eu evitei, sei lá porque, talvez porque não queria estragar o clima que, pelo menos entre nós, estava bom, conversando sobre um assunto difícil e sem muitas respostas, que é a forma como o Alan trata todos nós. O fim da noite meio silenciosa foi no Mancha, de frente pra praça que, a essa hora, estava deserta.
No sábado, minha família se reuniu no casamento de minha prima, Andresa. Ela é filha de um tio meu, irmão da minha mãe, já falecido. Meus tios, meus primos, até os de Campinas, todos reunidos. O casamento foi na Igreja Santo Antonio que, pra mim, é a mais bonita da cidade. Minha prima sempre foi muito bonita, doce, carinhosa, inteligente, e, na minha infância, fui muito apegado a ela e ao irmão dela, Juninho, que é meu padrinho. A emoção tomou conta de todos quando ela, de braços dados com o irmão, entrou na igreja. Me lembrei muito de meu tio Odair. Sempre gostei muito dele também. Era o tio mais animado, que mais promovia churrasco, que me levou pela primeira vez pra ver o mar. Minha mãe conta que meu tio adorava bagunçar comigo quando eu era bem pequeno, que uma vez, saiu escondido comigo da casa da minha avó e me levou ao barbeiro, e pediu que ele raspasse a minha cabeça. Chamava-o de Tio Dail hehe. Quando tinha festa na casa dele, brincava com meus primos no parquinho das Pitas, jogava vôlei, brincava na areia. Tive uma infância muito bonita na companhia deles. Nos reuníamos todo final de semana na casa de minha avó materna, a vó Maria. Saudades imensas dela, que nos deixou quando eu tinha 7 anos. Lembro dos cafés da tarde que tomava na casa dela. Tinha sempre, sempre, leite com café e pãozinho quente com manteiga. Molhava o pão no leite, ficava uma delícia. Até hoje quando faço isso, é impossível não me lembrar dela. Nos fundos da casa dos meus avós, tinha uma cerâmica, onde meu avô trabalhou a vida toda. Nosso quintal da infância era imenso. Tinha horta, jardim, muito morro pra subir, muita madeira pra inventar brinquedo, muito formigueiro, muito espaço pra deixar a imaginação correr solta. Lembro da gente saindo pra se esconder perto do forno, quando fazia algo de errado. Era perfeito pra brincar de esconde-esconde. O quintal pegava o quarteirão inteiro. Meus primos eram todos mais velhos que eu, 3,4 anos. Eles aproveitaram muito mais. Quando eu ainda queria brincar, eles já estavam pensando nas namoradinhas. Mas o tempo que aproveitei foi bom. Foram muitos natais lá, muitos aniversários. Era pequeno nessa época, lembro de pouca coisa, mas as fotos me remetem a muitos momentos. Lembro claramente da semana que minha avó faleceu. Não entendia muito bem o que acontecia, mas minha mãe estava em Ribeirão cuidando dela. Eu fiquei com as minhas tias e meus primos nessa semana, na casa da minha avó. Saía da escola e ia pra lá. Foi uma semana que passamos muita coisa juntos, Acho que nós no fundo, sabíamos que nunca mais iriamos ver a vó Maria. Depois, meu avô e minha tia Rita, a filha caçula que ainda morava com eles, se mudaram. Ela não teve tempo de estrear
a casa nova. Lembro que senti muito nessa época, quando pensava que nunca mais iria ver nosso quintal. Poderia até voltar a vê-lo, mas aí não seria mais nosso. Os natais e aniversários passaram a ser na minha casa. Era doloroso pra todos, e minha família demorou bastante tempo para se recuperar. Mas a minha infância continuou. Lembro de uma época em que a nossa mania, minha e a dos meus primos, era brincar com saquinho de pano com feijão. Lembro também da Aline brincando comigo de apresentadores de programa de fim de ano, e dos nossos arranca-rabos fenomenais que aconteciam no final das festas, da minha farra com a Andresa e o Juninho na praia, da paixão do Nivaldinho pelo Palmeiras. do Ricardo e do Rodrigo, meus primos gêmeos de Campinas que me levavam pra comer cachorro-quente gigante e depois pra passear no EXTRA de madrugada, da Fernanda gravando as trilhas de novela dela pra mim em fita k7, da Thalita, que chorava pra eu brincar com ela, e quando eu ia brincar, não deixava eu pôr as mãos nos brinquedos, todos eles fizeram parte lindamente da fase que tenho mais saudade de minha vida, quando ela parecia uma caixa de lápis de cor, e era só colorir. Hoje, passo na frente da casa onde meus avós moravam e as lembranças são inevitáveis. Outros moradores estão lá, a casa foi reformada, mas imagino o quintal igualzinho como era antes, e por isso, pra não mudar nada em minha memória, que não me atreveria a entrar lá hoje.
O casamento me trouxe todas essas lembranças. Fiquei muito emocionado e feliz
pela Andresa, a quem desejo muitas felicidades. Depois da igreja, o encontro familiar continuou na festa, que aconteceu em Santa Cruz das Palmeiras, cidade do Leandro, o noivo. Bebidinhas, comidinhas, e corta gravata, e joga o buquê. Estávamos todos muito felizes. Quando deu 1 e 15 da manhã, meus pais e eu fomos embora. Tinha combinado de ir na Lex Luthor, com o Che e o Maikinho. Sábado teve show do Armandinho. Cheguei em Tambaú, liguei para o Che, como tínhamos combinado, e ele foi me encontrar. Eles já estavam lá, e o show ainda não havia começado. Estavam também Éder e Neno. A noite foi divertidíssima. Rimos, brincamos, jogamos futebol com latinha de cerveja. Estava tudo certo, todo mundo se entendendo e sem nada pra atrapalhar,
pra quebrar o vínculo. Uma hora e meia de show que mal vi passar. Não conheço muita coisa do Armandinho e estava mais feliz por estar ali, com meus amigos, depois de uma noite também especial com a minha família. Bebi até além da conta mas estava muito feliz. Na hora de ir embora, no meu celular, tocava rock. Éder e eu subíamos quando, num momento de extrema animação e felicidade, comecei a dançar. Dancei muito na rua debaixo da minha casa, no chão
molhado. "Highway to hell", "You shook me all night long", "Satisfaction", essas músicas fizeram a trilha do fim de noite. Ajoelhei no chão e fiz guitarra na coxa, pulei, vibrei. Naquele momento, eu amei a vida, amei estar vivo, amei ser quem sou e ter o que tenho. Quis muito que a Lis e o Che estivessem comigo ali, naquele momento, curtindo essa onda. A farra acabou quando, na esquina da minha casa, vi uma luz vermelha refletida na parede, piscando. Era uma viatura da polícia. Pra não nos metermos em encrenca, ficamos de boa. Não importa se um dia eu for parar no inferno, dane-se. O fato é que faço o melhor possível para ser bom para as pessoas que merecem, para andar na linha segundo aquilo que Deus, meus pais, e a minha própria vida, me ensinaram. A gente não está aqui a passeio, tem que viver, aproveitar, fazer o que tem vontade, ser feliz, curtir as fossas também, de verdade. Não dá pra passar tudo em branco. Eu vou andar por toda a minha vida atrás do sol, como um pássaro gigante, grande, da cor do
mar. Isso é de alguma música bem antiga, mas cabe aqui agora. Isso já é algum tipo de salvação.
Domingo, ainda chovia. O almoço foi em família na casa de minha tia, com o pessoal de Campinas. Divertido! Depois em casa, falei com o Che e combinamos a saída da noite. Foi legal! Lis apareceu, não a vi no sábado. Éder e Maikinho também apareceram. Algumas reações ameaçaram a paz, algo não estava bem, mas como o mal parecia ter sido cortado pela raiz, achei que estava tudo bem. A noite no Mancha terminou ao som de "Como nossos pais", com Elis, e "Exagerado", do Cazuza, a música que definitivamente me define, explica meu ser. Jogado aos seus pés, com mil rosas roubadas, exagerado, Eu adoro um amor inventado. Nos despedimos. Tudo parecia ter sido perfeito. Rimos, nos divertimos, estava tudo pronto para eu enfrentar a semana numa boa, começar a segunda-feira com o pé direito e continuar o fluxo de boas vibrações. Mas, infelizmente, não foi bem assim que tudo aconteceu depois.

Jogos mortais

Hoje é quarta-feira. A semana está na metade e, pra mim, é como se tivessem passado duas. Estamos no fim de setembro e as responsabilidades vão aumentando, responsabilidades no meu trabalho, e a de fazer por onde para chegar no fim do ano e dizer que 2010 foi um ano bom, responsabilidade de viver lances que valham a pena e que mereçam ser lembrados. Quase não tenho tido tempo livre. Quando tenho, é escrevendo, dormindo ou com os amigos arranjando mais problemas para o caos que a minha vida às vezes se transforma. A Quintal das Artes está produzindo 2 peças, onde Paulo e eu estamos trabalhando juntos. "Casa de Brinquedos" vem funcionando. Penso nas coreografias e, quase que instintivamente, elas surgem, brotam. Tenho uma certa familiaridade com a peça. Foi o primeiro espetáculo que participei, em 1998, quando tinha 13 anos e entrei para a Escola Municipal de Teatro, que era dirigida pelo Paulo. O trabalho flui na "Casa de Brinquedos". A outra peça, "Somos Todos do Jardim da Infância", vem me tirando o sono. Tenho bloqueios criativos. Meu cérebro pifa. Eu penso, penso e não sai nada. Uma hora passa. Tudo volta ao normal e as ideias aparecem. Já passei por isso outras vezes, sempre que alguma responsabilidade muito grande caiu no meu colo. Esses bloqueios não têm data marcada para irem embora, e a espera pela partida deles é angustiante. Hoje então, tudo está mais evidente. Foi marcado excepcionalmente ensaio, já que, quinta-feira, nosso espaço físico, a SAT, estará ocupado. Não sei como será a noite de hoje. Bom, a de ontem, tinha tudo pra não dar em nada, mas acabou em dor de cabeça.
O ensaio da "Casa de Brinquedos" foi produtivo. Uma nova coreografia foi ensaiada, e os meninos se apresentaram cantando "Aquarela", do Toquinho, num número musical que provavelmente entrará no espetáculo. Depois do ensaio, o destino foi o posto. Lis, Alan, Che e eu, subimos. Lá encontramos o Neno e a Edna, irmã dele, que é um amor de pessoa. Éder apareceu de moto por lá, tinha acabado de sair do trabalho. Leandro e Joãozinho, que completou 30 anos nessa semana, apareceram também. Paguei um pau pra camisa dos Stones que o João estava usando. Primeira atividade da noite foi um inocente jogo de UNO, como sempre fazemos. Mais cedo, na manhã desse mesmo dia, Alan apareceu na biblioteca. Che não estava porque foi fazer uns exames. Papo vai, papo vem, no meio dos certificados do Projeto Agosto Folclórico que estava imprimindo para as escolas, Alan iniciou um DR comigo. Sim, ele estava chateado porque, segundo ele, nossa amizade não é mais a mesma. Disse que não me importo com ele, que não faço questão da sua presença, que não converso com ele para saber dos seus problemas. Ele é ariano como eu e, desse assunto, eu entendo muito bem. Não acredito em horóscopo de jornal, de revista. Acredito nos signos e no quanto que a lua interfere nosso estado de espírito e comportamento. Quem nunca se sentiu diferente e/ou viveu uma situação atípica numa noite de lua cheia? "Vamos cantar o blues da piedade pra quem não muda quando é lua cheia". O fato é que muita água passou nesse riacho antes dessas histórias melancólicas e sem sentido que vocês acompanham aqui, meus queridos. Já falei aqui de quando conheci o Alan e o Che. Éramos inseparáveis, fazíamos tudo juntos, saíamos todos os dias. Foram madrugadas e madrugadas na rua falando sobre o tudo e não dizendo nada. Mas a vida não ia se resumir só a isso pra sempre. O tempo vai passando, outras pessoas vão cruzando nosso caminho. Nossa visão e a forma de encarar as relações vai mudando. Gosto muito do Alan, sinto sua falta quando saímos e ele não aparece. Nunca esqueci o quanto que ele e o Che me ajudaram num dos momentos mais difíceis que já vivi, que foi meu retorno para Tambaú. Sempre fui um pouco cruel com ele. Acho que sou um pouco cruel com todos os meus amigos. Essa crueldade nada mais é que a minha completa sinceridade com eles. Amigo serve pra isso mesmo, pra abrir nossos olhos, pra compartilhar alegrias e tristezas, e dúvidas. O Alan nunca entendeu isso e me vê como um cara de gênio forte e difícil. Nós somos muito parecidos. Enfrentamos dificuldades parecidas na infância, somos observadores e adoramos dar tapa com luva de pelica, numa forma de carinho e preocupação.
Bom, ontem a noite, ele me disse que pensou em tudo que conversamos na biblioteca e que viu que tenho razão. Tudo está bem. Nada me tira da cabeça que isso foi coisa do Che, que hoje negou tudo, mas enfim. Depois do UNO, com a quantidade boa de pessoas reunidas, eles resolveram jogar "Ladrão e cidadão". Sempre tivemos problemas com esse jogo. Tivemos brigas feias em outras épocas por causa dele. Lislaine sempre tentou apaziguar as situações. Ontem, nessa hora, ela já tinha ido embora. É um jogo onde se usa o poder de persuasão, grandes blefes e o próprio argumento verdadeiro. Alan, Che e eu sempre levamos o jogo muito a sério. Eles podem até dizer que não, mas, pra nós, ganhar "Ladrão e cidadão" um do outro, virou uma questão de honra. Alan e eu somos bons na persuasão e usamos também um tanto de teatro nas nossas argumentações. Che já abusa da malandragem e das caras e bocas.
Começamos o jogo. Cinco cidadãos e três ladrões na jogada! O primeiro a sair foi o Neno: cidadão! A segunda vítima votada pela maioria, Leandro: cidadão! Eram 3 ladrões contra 3 cidadãos agora. Nessa hora, minha desconfiança era do Che, por causa da mudança repentina de voto e pelos olhares sacanas. Já tinha desconfiado também da Edna e do Éder, que lançavam sorrisinhos sarcásticos. O Joãozinho, eu tinha certeza que não era ladrão. A maioria foi no Che: BINGO! Achamos o primeiro ladrão. Para os cidadãos ganharem, faltava achar um ladrão, mas aí já estava meio óbvio. Che e Alan não votaram um no outro nenhuma vez. Eu, Edna e Éder fomos no Alan. GAME OVER! Achamos o segundo ladrão. E ele matou o jogo entregando o terceiro, pasmem, Joãozinho. Aí foi só alegria. Vibrei, comemorei muito, fiquei hiper feliz. Parecia final de Copa do Mundo. Ganhar do Alan e do Che nesse jogo, como dois ladrões na jogada, é motivo de comemoração mesmo. Os caras são feras nesse jogo e, sempre que puderam, se uniram contra mim na hora da argumentação. Ah, comemorei mesmo, como eles já fizeram várias vezes quando se saíram bem no final de outras rodadas em outros tempos. O Che não gostou muito. Quando ele se irrita, sai dizendo coisas sem pensar, e não consegue separar o que é sério e o que é brincadeira. Poxa, eu convivo com ele há bastante tempo, e hoje, durante boa parte do dia. Então, acho que sei diferenciar quando está tudo bem e quando há algo estranho acontecendo. Somos muito próximos e algumas atitudes ganham uma proporção enorme, pro bem ou pro mal. Temos sorte com o fato de que tudo se resolve logo. A gente conversa e se acerta. A amizade e o respeito falam sempre mais alto, mas segurar a onda desses altos e baixos é sempre muito difícil. Não podemos prever o tamanho do conflito antes dele acontecer, e o tamanho da rachadura que ele vai causar.
Nosso final de semana foi divertido. No sábado a noite, Che, Lis e eu fomos para um sítio, onde toda família do meu pai se reuniu para comemorar o aniversário de uma prima minha, a Naiara. Revi muita gente que há muito tempo não via. Foram com esses primos que, na minha infância, eu rolei na terra, brinquei no barro, pulei fogueira, cacei vagalume, andei a cavalo, bebi leite da vaca tirado na hora, com o copo cheio de achocolatado e açúcar. Foi com eles que fui mais moleque. Alguns eu nem lembro mais o nome, eram tantos, mas foi nostálgico. A Lis, o Che e eu dormimos lá. Três da manhã, quando todos os convidados que não iam dormir lá, já tinham ido embora, ficamos sentados numa mesa, debaixo de sereno, ao som de rock no celular. Um dia, eu tive alguém importantíssimo em minha vida, alguém que dizia que ia estar comigo pra sempre. Nós nunca íamos nos abandonar, éramos fatalmente inseparáveis. Mas o destino não cumpriu a promessa e todas aquelas palavras e declarações viraram pó no vento. "O mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos". Tem vez em que a culpa é nossa, do nosso egoísmo, nosso orgulho e da imbecibilidade de acharmos que somos insubstituíveis. Naquela noite, depois de conversarmos sobre esse assunto, entramos no quarto para tentarmos dormir. E quem disse que conseguimos? Foi um tal de dar travesseirada na Lis, "montinho" no Che. E conta história de terror, coloca música no celular e puxa o outro pelo pé, e conversa, e fala, fala sobre religião. Conseguimos dormir com o dia já amanhecendo. Depois, umas dez e meia da manhã, acordamos. Aí era só esperar o almoço, a cochilada necessária logo após, um futebolzinho tímido no campo, uma caminhada com algumas fotos, para irmos embora. A noite, mesmo exausto, pregado, eu saí com a turma. Umas duas ou três horas no Mancha, e descemos. Saímos de lá quando começou a tocar Beatles. Droga! Na esquina de casa, o clima deixou claro que não há só uma dupla de amigos em crise por esse reino. Leandro e Éder tiveram a sua DR, mas dessa vez, fui só espectador. Pouco se falou, mas exatamente o silêncio que foi crucial na hora de buscar certas respostas. Tudo acaba passando, mais cedo ou mais tarde, até o dia que não passar mais nada. o dia em que as águas desse riacho irão correr pra outra direção.